Fenômenos naturais vs. medo de voar

Para tudo! Parem as máquinas! Estou eu aqui, bem calmo, olhando a vida alheia no Facebook neste fim de noite quando me pula essa notícia: mudança climática vai elevar em 150% turbulência grave em avião, diz estudo. Oh, meu Deus do céu (literalmente).

 
Voa, bichão, voa que não pega nada

Voa, bichão, voa que não pega nada

 

Causando turbulências

Bem, o primeiro passo que dei foi checar a fonte da notícia, a revista Advances in Atmospheric Sciences. Com uma pesquisa no Google vejo que é de fato uma base de dados confiável. Então vamos lá explicar a manchete sensacionalista. O estudo analisou os casos de turbulência de “ar claro”, que é quando não há presença de nuvens. Ou seja, o clima pode estar ideal (céu de brigadeiro, como dizem), e do nada surge uma lufada de ar que balança tudo e faz a pessoa panicada morrer por dentro. Isso acontece quando o avião entra em áreas com ventos que chegam a mais de 100 quilômetros por hora, sobretudo em regiões de clima subtropical.

A pesquisa simulou como as mudanças no clima afetam a ocorrência desses fenômenos, tendo como base o aumento do dióxido de carbono na atmosfera, vindo sobretudo da queima de combustível fóssil. O resultado? Turbulência leve: aumento de 59%. Os números apontam ainda um crescimento de 149% nos casos de turbulência severa, dessas que derrubam objetos dos bagageiros e podem até jogar pessoas pro teto do avião. É por esse motivo que a tripulação insiste em pedir que todos mantenham os cintos afivelados, mesmo em condições climáticas consideradas ótimas.

Mas, afinal, uma turbulência pode derrubar um avião? Para alívio dos corações panicados, a resposta é: não. Assusta? Sim. Mas a indústria aeronáutica é algo da qual nós, seres humanos, podemos nos orgulhar. As turbulências são geralmente comparadas com imperfeições no asfalto, como aquelas que fazem o carro dar uma trepidada. Ou seja, nada de pânico! A instabilidade do movimento do ar altera a estabilidade da aeronave e faz com que ela suba e desça. Algumas áreas de turbulência são detectadas pelos computadores do avião. Quando é “em ar claro”, isso não é possível. Nessas horas, assim como em um carro, o piloto diminui um pouco a velocidade do avião, para dar mais conforto aos passageiros.  

 
Uma mudança repentina no fluxo de ar pode causar turbulências. As causas para tal? Ventos, tempestades, correntes de ar, proximidade com cordilheiras (Fonte: CBC)

Uma mudança repentina no fluxo de ar pode causar turbulências. As causas para tal? Ventos, tempestades, correntes de ar, proximidade com cordilheiras (Fonte: CBC)

 

Isso não quer dizer que os ventos não foram responsáveis por acidentes no passado. Um dos casos mais famosos é o do voo 191 da Delta, que caiu próximo ao aeroporto de Dallas (EUA), em 1985, matando 135 pessoas. O avião estava em aproximação da pista sob forte tempestade, quando entrou acidentalmente naquilo que os especialistas chamam de microburst, rajadas fortes de ar que empurram o objeto para baixo. Como o avião estava em uma altitude baixa, não houve tempo hábil para a tripulação “levantar” o avião, que acabou se chocando com o solo. Mas, mais uma vez, nada de desespero: a indústria aeronáutica aprendeu com o acidente e desenvolveu equipamento capaz de detectar a formação de microbursts. 

 
Avião Lockheed 1011 Tristar da Delta. Um modelo igual a este sofreu acidente por conta de um microburst

Avião Lockheed 1011 Tristar da Delta. Um modelo igual a este sofreu acidente por conta de um microburst

 

 

Tempestades... em copo d'água?

Outra preocupação dos panicados é com os raios. Vamos lá: raio derruba avião? Na na ni na não. Os aviões são projetados para aguentar todos os trancos (como é possível ver em alguns vídeos que povoam o YouTube).  A fuselagem do avião é feita principalmente de alumínio. Como o material é um bom condutor de energia, a descarga elétrica flui sobre o avião até seguir normalmente seu caminho em direção ao solo. Geralmente o raio atinge um avião em uma das extremidades da aeronave (nariz, pontas das asas ou cauda), partes que costumam ganhar um reforço com materiais mais resistentes.

 
Um raio atingiu este avião enquanto decolava, em Osaka (Japão), e depois seguiu para o solo — a eletricidade é conduzida ao longo da fuselagem de alumínio e a vida segue em paz (Foto: Gizmodo)

Um raio atingiu este avião enquanto decolava, em Osaka (Japão), e depois seguiu para o solo — a eletricidade é conduzida ao longo da fuselagem de alumínio e a vida segue em paz (Foto: Gizmodo)

 

O assunto fica um pouco mais sério quando se trata das tempestades solares. Tal fenômeno é produto do aumento da atividade do Sol, cujas explosões lançam pelo espaço "vento solar" e/ou nuvens magnéticas que interagem com o campo magnético da Terra. Estas tempestades são conhecidas há muito tempo e ocorrem de maneira cíclica — nosso astro rei tem períodos de atividade mais ou menos intensas. Em 2012, por exemplo, a Terra escapou de receber o impacto de uma dessas explosões de grande magnitude. Aparelhos como GPS e comunicadores que dependem de frequência de rádio, como, vejam só... aviões, podem sofrer interferência. Em 2010, por exemplo, aviões tiveram de ficar em solo em um curto período de tempo (quinze minutos) em algumas partes do globo, por conta de perigos que as tempestades solares detectadas por equipamentos sofisticados poderiam causar na correta navegação. 

 
Quem diria que até o sol iria apertar a mente dos panicados? As tempestades solares podem interferir no campo magnético da Terra e, consequentemente, no bom funcionamento de aviões (Foto: Nasa)

Quem diria que até o sol iria apertar a mente dos panicados? As tempestades solares podem interferir no campo magnético da Terra e, consequentemente, no bom funcionamento de aviões (Foto: Nasa)

 

 

Eyjafjallajökull... Entre outros

E vulcão? Pois é, esses sim demandam cuidados da aviação. Um dos casos mais recentes foi a erupção do quase impronunciável Eyjafjallajökull, na Islândia, em 2010. O tráfego aéreo de boa parte do norte da Europa foi prejudicado pela enorme coluna de fumaça expelida. Em abril daquele ano, o espaço aéreo foi fechado por seis dias em diversos países do norte e oeste da Europa para voos devido à precipitação de cinzas na atmosfera, que poderiam causar entupimento dos tubos pitot (que auxiliam na medição da velocidade, dado essencial para a tripulação) e falhas operacionais dos motores a jato dos aviões. Há um caso famoso na história de um quase acidente envolvendo vulcões. Em 1982, um 747 da British Airways que fazia a rota Londres — Auckland (com mil escalas no meio), quando sobrevoou a Indonésia, passou por dentro de uma nuvem de cinzas resultante da erupção do monte Galunggung. Resultado? T-o-d-o-s os quatro motores simplesmente pararam de funcionar, devido à presença das cinzas dentro das turbinas. Quando o avião perdeu altitude, o material depositado acabou sendo expelido e tudo voltou a funcionar normalmente. Todos se salvaram, apesar do MEGA susto.

 
Vulcão Eyjafjallajökull, na Islândia, entrou em erupção em 2010 e parou o tráfego de aviões na Europa por vários dias

Vulcão Eyjafjallajökull, na Islândia, entrou em erupção em 2010 e parou o tráfego de aviões na Europa por vários dias

 
 
Projeção da nuvem de fumaça provocada pela erupção do Eyjafjallajökull (relativo ao dia 17/04/2010). Em vermelho: cidades com todos os voos cancelados; em amarelo: apenas alguns voos operando; em verde: apenas voos vindos ou indo para as regiões afetadas foram cancelados

Projeção da nuvem de fumaça provocada pela erupção do Eyjafjallajökull (relativo ao dia 17/04/2010). Em vermelho: cidades com todos os voos cancelados; em amarelo: apenas alguns voos operando; em verde: apenas voos vindos ou indo para as regiões afetadas foram cancelados

 

 

Total eclipse of the heart (do panicado)

E hoje — 21 de agosto de 2017 — ocorreu um eclipse solar total para os EUA e Caribe (e parcial para alguns estados brasileiros). Sabe no que um eclipse pode interferir para o bom funcionamento de aviões? Nadinha. Só deve ser assustador estar voando em uma hora dessas. Tirem suas próprias conclusões no video a seguir. É bonito? É. Interessante? Sim. Mas ficarei atento para que nos próximos eu esteja no velho e bom chão. 

 
 
Rivorivotravel1 Comment