Amor eterno, amor verdadeiro

Amo aviação — tudo que envolve o tema, como modelos de aviões, companhias aéreas e aeroportos — desde que me entendo por gente (ok, essa coisa de “desde que me entendo por gente” é bem clichê; fazer o quê? É isso mesmo).

 
 A tatuagem é photoshop, mas o amor não

A tatuagem é photoshop, mas o amor não

 

Adorava acompanhar meu pai quando ele ia no aeroporto de Salvador, que nos anos 1980 ainda se chamava Dois de Julho (uma saudade). Naquela época o espaço era mais caloroso, mais aberto, sem o asséptico ar-condicionado, o que torna muitos aeroportos uns caixotes. Tinha uma área avarandada enorme da qual era possível avistar os aviões e o embarque remoto. Não havia fingers no aeroporto (fingers são aqueles corredores meio sanfonados que ligam a área de embarque ao avião). Então os passageiros surgiam “por debaixo de nossos pés”, no andar inferior, e iam caminhando pelo pátio até a escadinha do avião. Era um frisson. Se estivéssemos esperando algum conhecido embarcar, o barato era ficar ali, na pontinha dos pés, na balaustrada, esperando ver o cocuruto da pessoa. E se fosse para receber alguém que chegava, a onda era ficar de olho na porta do avião, até a pessoa que esperávamos aparecer. Aí era um festival de tchauzinhos e pulos e gritos de boa viagem ou de boas vindas. Não sei como meu pai não morria de vergonha. Ainda mais que eu era bem feminina quando criança, então certamente era uma fechação pura. 

Mas o amor aos aviões não era só em dia de ir ao aeroporto. Naquela época, os aviões eram bem mais barulhentos (alguém já percebeu essa evolução tecnológica da indústria? É fato concreto mesmo, não é impressão minha, não). Aí quando passava um avião por cima da casa onde cresci, eu largava o que estivesse fazendo e ia “bater continência”. Hoje me parece ridículo, em virtude de minha aversão ao militarismo — mas lembro que eu ficava durinho, retinho, no jardim, olhando pro céu, até o avião sumir atrás da casa ou das árvores. Era uma continência lúdica, no entanto. Abria bem o dedinho mínimo e o polegar (ou seja, os das extremidades), de modo a emular um avião. Na época, já conhecia todos os modelos e companhias aéreas — nem precisava de meu “luxuoso aplicativo” Flightradar24 (falarei dele em breve aqui no Rivotravel).

Também na infância, fazia coleção de revistas sobre o tema e passava horas discutindo sobre o assunto com um amiguinho com quem dividia meu amor. Era um triângulo amoroso perfeito, sem ciúmes. Nessa época, era grande minha vontade de, quando adulto, virar piloto de avião comercial. Nada de pilotar jatinho, helicóptero ou avião militar!  Tinha também uma coleção de miniaturas de aviões. Até hoje guardo alguns. Estão todos “estrupiados” de tanto que eu brincava com eles. Aviãozinho pra mim era pra estar voando, nem que fosse de mentirinha, na minha mão. Nada de ficar parado na estante. Hoje, gozam da merecida aposentadoria. Estão bem arranhados, confesso. Tive uma fase “sanguinária” e adorava simular acidentes aéreos. Aliás, até hoje tenho essa mania: ler ou assistir a programas sobre acidentes. Se isso aumenta meu pânico? Claro. Mas não posso fazer nada, gosto é gosto. 

 
 Tá, tattoo falsa de novo, mas você sabe que eu te amo, bichão!

Tá, tattoo falsa de novo, mas você sabe que eu te amo, bichão!

 

Aliás, lembrança de um fato curioso: no dia que anunciaram a morte de Ulysses Guimarães (político brasileiro que morreu em 1992, em um acidente de helicóptero no mar de Angra dos Reis, no Estado do Rio de Janeiro) eu estava justamente brincando de acidente aéreo na piscina. A brincadeira consistia em construir um avião com peças de Lego, colocar os bonequinhos dentro e jogá-lo com força na água para que espatifasse bem. Depois eu pulava e saia catando tudo (destroços e vítimas). Alguns “passageiros” desciam direto pro fundo, presos ao que sobrasse da fuselagem. O céu dos Legos está cheio de vítimas minhas. Credo, que coisa mais macabra... Mas hoje sou um homem bonzinho, juro por Deus.

Na adolescência, quando comecei a viajar sozinho, sobretudo para São Paulo e Itália, passei a escolher voos com demoradas conexões (para explorar bem os aeroportos) ou com muitas escalas (para passar o maior tempo possível dentro do avião). Coisa de amante mesmo. O tempo foi passando e o amor não acabou, apenas se transformou. A ideia de ser piloto passou, veio a vontade de ser arquiteto, mas isso também passou. Chegou o jornalismo. Mas, mesmo assim, na metade do curso de comunicação, quase decidi jogar tudo pro ar (trocadilho involuntário, juro) e fazer o curso para me tornar piloto. Acabei seguindo em frente e o sonho foi pra gaveta. Ainda bem. Já pensou pegar um avião com um piloto que tem pânico de voar? Flórida demais. Mas tudo bem, não tenho arrependimentos. Continuo minha paquera de mais de três décadas do meu jeito: visitando sites, lendo sobre o assunto — sobretudo fazendo o que eu mais gosto, que é viajar. E, agora, rivotravelizando!