Viajei: SOCORRO — ou: será que voar sem remédio é mesmo uma vitória?

ida: VOO SALVADOR–Campinas(SP) / Volta: Voo São paulo–SALVADOR — 2025

Agora em dezembro fiz dois voos, um sem medicação (ida) e outro com remédios (volta). Não acho que voar sem ajuda de um remedinho seja vitória, pois caso contrário seria como admitir que viajar meio (ou completamente) dopado seja uma derrota, algo que eu definitivamente não acredito. Mas a história começou bem antes, em agosto, quando compramos as passagens para as festas de Natal e Ano Novo. Ida pela GOL via Campinas, onde mora minha irmã, e volta via São Paulo (pela LATAM, no aeroporto de Congonhas). Guarde bem este detalhe…

Aí meu marido já começa a cantilena: poxa, vamos voltar bem no dia 31 de dezembro, chegaremos ao fim da tarde, se você tomar remédio vai capotar na cama quando chegar em casa e só vai se levantar em 2026.

E se?

Pois é. E se eu tentasse voar sem remédio? No começo fiquei nervoso com a ideia, mas cedi. Eu sou facinho.

 
 

Os dias que antecederam o voo

Mas que no fim de novembro do ano passado, bem na véspera do meu aniversário, recebi uma linda notícia. A Airbus tinha chamado para recall de 6 mil aeronaves da fabricante europeia para consertar um problema em softwares instalados em metade da porta mundial do A320. A GOL opera apenas com Boeings 737, então eu estava tranquilo. Mas a LATAM voa com Airbus A320. E adivinhem qual era o avião que faria a rota para Salvador? Sim! Ele mesmo. Logo a LATAM divulgou um comunicado que nenhuma de suas A320 operadas no Brasil estava incluída na lista do recall. Vocês acham que fiquei sossegado? “Essa empresa só quer o lucro, está mentindo, sabe que parar um avião no hangar para uma atualização significa voar menos”. Esses e outros pensamentos voaram longe. Liguei para a companhia aérea (só para esperar na linha e depois ouvir a resposta robótica da atendente de que tudo está certo), formalizei pedido de apuração de informações com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), cuja resposta até hoje aguardo.

Pra piorar? O voo decolaria da pista de Congonhas, que é um trauma para dez entre dez panicados e quiçá não-panicados também.

E isso sem remédio.

Pronto, o caldo do caos estava já fervendo.

 

Olha aí o danado do Airbus A320 que tanto sono me tirou! No fim deu tudo certo

 

Ok, deixei dezembro passar. Chega a véspera do voo. Aquele estresse gostoso de fazer mala (sou do time que sempre acha que vai esquecer algo).

Estou na cozinha, vou abrir a geladeira. Olhando para as prateleiras, com o olhar meio perdido, penso que voarei no dia seguinte e fico enjoado. O medo de voar se expressando em meu corpo. De noite, boto Marina Lima pra tocar. Quando estou lavando os pratos, o Spotify no modo aleatório coloca Divino, Maravilhoso, na voz de Gal Costa (“é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”). Forte. Necessário. Por um minuto me sinto confiante. Se quero viver, se quero viajar pelo mundo, tenho de estar atento e forte. Porém a confiança passou em minutos, nem deu tempo de enxaguar tudo. O Spotify veio na sequência com a belíssima e tristíssima Rosa de Hiroshima, interpretada por Ney Matogrosso. Pesou o clima.

Vou dormir ao som de uma mentalização positiva: voar é seguro, voar é seguro. Mas por algum motivo começo a ouvir dentro da cachola que voar é inseguro. Já abro os olhos afobado. Nem meus mantras que eu crio eu controlo? Quero voltar a ser criança e me encantar por estar dentro de um avião como eu fazia. Que nem no desfile de Natal.

No escuro, olhando o teto do meu quarto, tenho a certeza de que o avião vai cair (spoiler: não caiu, mas isso é meio óbvio, e naquela noite eu ainda não sabia disso).

Indo de Salvador para campinas

No dia seguinte, pra sair, sempre aquela correria gostosa à la Esqueceram de Mim. Bem que poderiam se esquecer de mim e eu ficar em casa. No táxi indo ao aeroporto, sou pura ansiedade. Me pego roendo a pele interna dos lábios. O fato do motorista estar costurando entre as faixas e acima do limite de velocidade ajuda na tensão. Boto o famoso “barulho branco” no fone. Sai um som igualzinho àquele que a gente ouve quando está no avião, lá em cima em altitude de cruzeiro. O ronco das turbinas, constante, de fundo. Até que gosto, já vou me adaptando, voando ainda em terra.

Não tomei remédio. Mas ele tá na minha pochete pra qualquer emergência.

E eu só pensando no pacote de camarão seco na mala de mão, que minha irmã pediu pra levar. Rezando pra chegar vivo no aeroporto e pro saco com os crustáceos não feder no voo.

Pois chegamos vivos. E famintos, pois era bem na hora do almoço. Esqueço que estamos no ponto mais inflacionado da cidade e, sem checar antes o preço, peço dois sanduíches pequenos na Subway e uma água saborizada. Oitenta reais. O medo é real. Voltando ao remédio, ou melhor, ao fato de não tê-lo tomado, me sinto estranhamente bem. Não é uma sensação de vitória, de YEAHHHHH, nada disso. É uma serenidade mesmo.

O embarque foi rápido, pois tinha pouca gente no voo (glória!). Mas entrando no avião, sempre de pé direito, já vejo que tinha gente nos nossos lugares. Nem me abalo: falo com o comissário. A mulher não queria levantar. Veja só! Pago mais caro por Sir na primeira fileira significa ter mais espaço pra minhas pernas longas e ainda tenho de batalhar pelo meu direito. Ela e as duas pessoas com quem estavam juntas saíram achando ruim. Nem me abalei.

 

Eu embarcando sem remédio na cabeça no voo de ida (Salvador–Campinas)

 

Para a decolagem, não fiz o tradicional ABC. Usei a minha técnica de me imaginar um grande e forte pássaro correndo por uma campina, ganhando velocidade e descolando as patas do solo, em sincronia com o avião. Funcionou, em partes. Do momento que a porta foi fechada pela comissária e a altitude de cruzeiro, minhas mãos pareciam cachoeiras de suor e meu coração batia loucamente. E olha que coloquei nos fones algo bem tranquilinho, uma playlist do compositor Debussy. Eu quase chorei, verdade seja dita, e não foi de emoção com as obras sonoras do artista francês. Eu realmente fiquei muito ansioso, a decolagem para mim é a pior parte.

Sem remédio, eu vivi cada etapa do voo. E quase morri de tédio. Com o remédio o tempo passa tão rápido…

Minutos depois, quase tenho um treco. Tava focado, ouvindo um podcast, quando sinto uma estranha trepidação no assoalho da aeronave, bem ao meu lado. Já arregalei os olhos achando que era algo sério na estrutura do avião. Mas era só o carrinho do serviço de bordo passando. São coisas que eu geralmente não noto no voo, pois estou sempre apagado.

No meio do voo, fui ao banheiro. Lá dentro, senti um ventinho e comecei a pirar achando que tinha alguma fresta na fuselagem! Qual probabilidade? Zero. Eu já teria sido sugado pra fora. Acho que desbloqueou outra neura (além daquela de ser puxado na hora da descarga). Nunca fiz um xixi tão rápido. Já abrindo a porta do minúsculo espaço, reparei que era apenas uma saída do ar-condicionado jogando ar renovado lá dentro (ainda bem!).

Volto ao assento e começa uma turbulência: já fico nervoso. Mas relaxo um pouco ao pensar na metáfora do aviãozinho no meio da gelatina, sendo a qual a turbulência mexe, mexe, mexe, mas a aeronave está “presa” no centro, só chacoalhando, sem cair, pois está circundada pela “massa compacta” do ar.

Mesmo assim, fico aflito, afinal sou panicado. Na tensão, mando mensagem via WhatsApp para uma sobrinha contendo a senha de meu computador, para ela pegar o arquivo do livro que acabei de escrever e tentar arranjar alguma editora que queira um lançamento póstumo — sob pena de ser assombrada caso não o edite. Olha a cabeça da criatura!

Já perto do pouso, fui rapidinho no fundo pegar água, pois minha boca estava mais seca que as dunas de Mangue Seco. Reparei que na altura das asas tinha uma passageira amamentando (sim, mulheres podem e devem amamentar em público se quiserem) e sem usar o paninho cobrindo a cabeça do bebê e o seio (sim, mulheres podem e devem amamentar em público sem cobertura de um tecido se quiserem). Na volta, um minuto depois, o bebê já estava no colo de um rapaz ao lado (pai? Tio? Não sabemos) e ela estava com uma frasqueira enorme cheeeeia de maquiagens, já com um belo e enorme pincel nas mãos passando um blush. Adorei. You go, girl. E não, mulheres não precisam se maquiar se não quiserem.

Chega de militância, extrapolei meus limites em um único parágrafo.

Na hora do pouso, bateu outro pânico (justo naquele momento que para mim é o mais feliz, pois significa o fim do tormento?). Resolvi sair da música erudita e ir pra algo bem alegre. Abba, é claro! Nossa, foi a opção mais que acertada. Me senti dublando em RuPaul Drag Race, cada pedaço de meu corpo era pura alegria. Foi maravilhoso. Se os outros passageiros me olharam como ar de “quem é esse doido?”, isso eu não vi, estava de olhinhos fechados sentindo cada uma das músicas. Quem se importa, não é mesmo?

Cheguei vivo.

Viajando e sofrendo

Foram dias ótimos, tanto em Campinas/Paulínia quanto na capital paulista, mas claro que panicado raiz é aquele que pousa já pensando na próxima decolagem, não é mesmo? Pra piorar, ainda teve a explosão do foguete brasileiro dia 22 de dezembro, no Maranhão. Eu sei que avião é avião e foguete é foguete, mas quem é racional em uma hora dessas? Parece que tudo clama para que você fique em terra firme, tudo vira um sinal.

Vai chegando o dia 31, a volta fatídica no A320 da LATAM saindo da pista de Congonhas, e eu começo a ficar nervoso. Insônia? Sim, bastante. Taquicardia? Também. Vou pesquisar voos de Guarulhos para Salvador (afinal, a pista do aeroporto internacional de São Paulo é bem maior, o que traz mais conforto, pelo menos engana a mente). Tudo caríssimo. O mais barato custava, o trecho por pessoa, R$2.613. Com conexão em Buenos Aires! Pior que era só conexão mesmo, sem stopover, nem daria tempo de dar uma volta pela capital portenha.

 

A opção mais barata no Google Voos era com conexão em Buenos Aires!

 

Saio pela cidade para tentar esquecer o tormento. Vou no Museu de Artes de São Paulo (MASP). Lá, encontro esse “belíssimo” mural de Minerva Cuevas (Terra Primitiva) com, entre outras imagens, um avião derrubado no chão. Ah, a arte…

Uma irmã, coincidentemente, me manda um vídeo do Instagram dizendo que as empresas aéreas não podem reter mais do que 5% do valor do bilhete em caso de desistência do passageiro. Vou pesquisar mais a fundo e vejo que ainda não é uma lei. Começo a pensar na possibilidade de voltar de ônibus.

Luis, meu marido, fala que um guru indiano uma vez disse que ele não morreria de um desastre, então que enquanto eu voasse com ele estaria tudo bem. Vontade de esganar, ele e o guru. Se a confiança dele é válida, por que meu sexto sentido de que “o avião vai cair também não é?”. Sim, eu tinha certeza de que o avião ia varar a pista e sair voando reto rumo aos prédios que circundam Congonhas.

Voltando de São Paulo para Salvador

No dia do voo, dia 31 de dezembro, dia de festa, eu acordo já de ressaca psicológica, olhar cabisbaixo, cabeça pesada, isso sem ter tomado nada de álcool. Me entupo de café, apesar de saber que o café aumenta os batimentos cardíacos (que já estão aceleradíssimos) e contribui com a piora de quadros de ansiedade. Boto meditação guiada pra relaxar. Dezesseis minutos de duração. Não passo do primeiro. Vou de música mesmo. Mais Abba. Canções italianas dos anos 1960 e 1960. Timbalada. Funciona.

Tomei o remedinho. Não me senti derrotado. Pelo contrário, senti um enorme alívio.

Só assim consegui suportar o péssimo táxi que nos levou até o aeroporto. Mas nada podia me abalar, eu estava em estado de Nirvana. Chega em Congonhas, imagine a cena, aeroporto central da maior cidade do país na boca do Réveillon. Caos. Pelo menos o despacho de mala foi rápido, no esquema “faça você mesmo”: pese a mala, insira os dados, imprima a etiqueta e mande o volume via esteira até que ele suma de sua vista e vire responsabilidade da companhia aérea.

Meu cartão de crédito só dava direito a uma das salas VIPs do aeroporto. White People Problem, mas no quadro letárgico que estava eu precisava sentar urgentemente. A sala estava tão cheia que parecia balada. Coração palpitou, e não foi por boa razão.

 

Duas luxuosas salas VIP de Congonhas (rs)

 

Melhor cair fora. Conseguimos um belo espaço privê no chão mesmo, entre pessoas que iam e vinham pelo corredor. Super VIP. Não estava nem aí. Além de estar devidamente medicado, ainda tinha tomada para carregar o celular.

No meio de tanta confusão, a LATAM até que administrou bem as filas com os grupos para embarque. A gente pegou a classe Premium (quando estou na primeira fila me sinto menos panicado, até já fiz matéria com vários relatos aqui). Então entramos primeiro… no ônibus. Sim, o avião estava em posição remota, que é aquela em que ele fica afastado do terminal e deve ser acessado a pé ou por veículos. Acontece que quando o ônibus parou perto da aeronave foi um salve-se quem puder e eu, na lentidão rivotrílica, junto ao meu marido, ficamos pra trás. Beeeem pra trás. O sol torrando o cocoruto. A fila que não andava. A ansiedade batendo. Vontade de bancar o louco e sair gritando: “Me prometeram prioridade quando comprei!!!” Parece algo frívolo, pequeno burguês, mas quando somos panicados tudo que podemos fazer para aliviar nossas tensões deve ser feito, e no meu caso a solução consiste em entrar o quanto antes naquele tubo metálico, sentar e tentar fingir que não estou ali.

Apesar de medicado, lembro bem que a decolagem foi tenebrosa. Daquelas que sacode tudo e você já está na terceira bolinha do terço.

Dormi o voo todo. Devo até ter babado um pouco.

Resultado: acho que me senti mais vitorioso no voo da volta.

Se precisar de remédio, tome. Não é derrota. Converse com sua psiquiatra caso queira tentar viajar sem medicação.

Deixo você com essa bela foto minha vendo o mural no MASP. A arte é uma coisa esplendorosa, não é mesmo? Essa artista fofa, vontade de dar um abraço beeeeem apertado, essa QUERIDA.

 

Obra Terra Primitiva, de Minerva Cuevas, no MASP. Not safe for panicados

 

E sempre mentalizando: avião é super seguro. Inseguro sou eu.

* * *

No final das contas, é bom entender que o remédio não é muleta nem medalha. É ferramenta — podemos usar ou não, sem méritos ou deméritos. Há dias em que atravesso o céu bem acordado, suando, dublando músicas com meu fone de ouvido para driblar o medo; em outros, atravesso dormindo, babando, mas sempre chegando inteiro ao destino. Nenhum dos dois me faz maior ou menor. O erro é transformar tudo em competição. Se voei, vivi. Se precisei de ajuda, ótimo: ela existe pra isso.

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