Destino: Suíça — ou A saga de um suíço/não-suíço por suas origens

“Essa matéria tem de entrar no ar hoje, Rafael. Hoje!”. Foi dessa forma que acordei o coitado de meu marido (e editor do rivotravel) pouco antes da 1h da manhã.

“Posso fazer uma matéria sobre a viagem que fiz à Suíça?”, continuo.

“(Grunhidos incompreensíveis)… pode…”

(Ou pelo menos acho que foi isso que entendi. Saberei logo mais, quando o sol surgir e ele acordar).

Enfim, se essa matéria está no ar é porque Rafa gostou da pauta. Ou eu bati pé e enchi o saco dele para postar mesmo a contragosto.

Hoje, 1º de agosto, é o dia nacional da Suíça, ou da Confederação Helvética, nome mais pomposo do país. Segundo a lenda, foi nessa data (só que láááá em 1291) que os representantes de três cantões (algo equivalente, nos tempos atuais, aos estados brasileiros) se reuniram para fundar o embrião da atual Suíça.

 
Uma parte de meu coração é vermelho e branco…

Uma parte de meu coração é vermelho e branco…

 

“E eu com isso?”, você pode se perguntar. Mas vamos com calma.

Tenho muito orgulho do rivotravel, um site feito a quatro mãos (aliás, vocês conhecem Rafa? Vejam mais sobre ele aqui) com muito amor e carinho. Fico empolgado com cada comentário que recebo, cada curtida no Instagram. Mas, vendo em retrospecto, noto que tenho focado muito mais na parte “Rivo” — quem está por dentro dos meus remedinhos consegue pegar a referência com o tema “medo de voar” — e esquecido um pouco (OK, bastante) da parte “Travel” (viagem, em inglês). Amo, amo viajar, e só não viajo mais (de avião) por puro pavor. E a falta de grana ajuda também, né? Vivemos tempos difíceis.

Aproveitando que hoje é a data máxima da Suíça, resolvi escrever um texto sobre minha primeira (e até agora única) ida ao país, em novembro de 2016. Mas, antes, preciso falar um pouco de mim, pois é importante para compreender o peso simbólico dessa minha viagem. Quem quiser apenas ler sobre o país alpino pode pular para a “PARTE 2” desse texto, lá embaixo. Não vou ficar chateado (não vou ter nem como saber mesmo rs). Mas quem optar por saber um pouco mais sobre os bastidores dessa viagem tão marcante para mim, aconselho prosseguir a leitura sem saltos. Prometo parágrafos cheios de amor e ternura (nhoim ♡)

Mas porque escrever assim, do nada, justo sobre a Suíça? Tanto país no mundo menos entendiante — sim, o país tem essa fama, com certa razão, devo admitir.

É porque eu sou, em parte, suíço. Mas, assim, um suíço meio fajuto, um canivete falsificado, um queijo com vários furos e lacunas na árvore genealógica.

 
As “imperfeições” também fazem parte dos famosos queijos suíços. E de todos nós…Profundo isso (risos)

As “imperfeições” também fazem parte dos famosos queijos suíços. E de todos nós…Profundo isso (risos)

 

PARTE 1 — Origens helvéticas

Oficialmente, não sou suíço: obter o passaporte vermelho é uma tarefa hercúlea, com direito a falar, comprovadamente, pelo menos uma língua oficial, fazer um teste escrito, comprovar laços estreitos com o país, dentre outros quesitos. Mas boa parte de minha origem vem de lá. Sim, meu nome (Salvatore) e sobrenome (Carrozzo) entregam meu lado italiano. Meu pai e não-sei-quantas-gerações antes dele eram da Puglia, uma linda região ao sul da Itália. Sabem o salto alto da “bota”? Pois é bem ali. Já escrevi sobre a Puglia aqui no rivotravel, logo no início do site, em 2017. E misteriosamente a matéria ainda é super lida, acho que tem um monte de brasileiro pesquisando pelas belezas pugliesas. Meu pai veio para o Brasil com 30 anos e conheceu minha mãe em São Paulo. O fato é que eu cresci em uma verdadeira casa italiana (Don Vito, bem machista, impôs sua cultura), comendo muita massa, vendo a RAI, gritando, essas coisas…

E minha mãe nisso tudo? Ela nasceu em Zurique, maior cidade suíça, em 1939. Quem é bom em História se lembra que, opa, foi naquele ano que um certo ditador alemão resolveu invadir a Polônia e começou assim uma guerra. Pois mamãe veio ao mundo um mês depois da tal invasão. Zurique é colada à fronteira sul da Alemanha, e por mais que seja historicamente considerada uma nação neutra, sabem como é, né? O seguro morreu de velho. Aliado a isso, reza a lenda que meu avô materno era judeu, mas teve de esconder o fato, como milhões de europeus. O fato é que minha avó virou para meu avô (imagino que tenha sido mais ou menos assim) e disse: “vamos nos mandar daqui, a coisa tá feia. Tenho uns parentes que moram no Brasil”. Meu avô, então, vendeu a loja e a fábrica de relógios (clichê, né? Quem imaginaria um suíço produzindo relógios…) que tinha em Zurique — ele vinha de gerações de relojoeiros — e pegou um navio com a pequena família (saindo de Gênova, na Itália, pois a Suíça não tem acesso ao mar) em direção ao novo mundo.

 
Loja (térreo) e oficina (demais andares) de relógios de meu avô Otto Billian, na Seefeldstrasse, em Zurique

Loja (térreo) e oficina (demais andares) de relógios de meu avô Otto Billian, na Seefeldstrasse, em Zurique

 

Minha mãe é a suíça mais baiana que conheço. Uma moleca que, em outubro, completa 80 anos. Tem mais vitalidade que eu, mesmo tendo quase meio século a mais de vida. Ela cresceu em Salvador, sem contato com os parentes suíços — eu fui conhecer uma prima só aos 34 anos, na tal viagem de 2016. Era uma época sem telefone com tarifas acessíveis, sem internet, WhatsApp etc. Então foi isso mesmo: acostume-se aos trópicos, pequena garota suíça.

Dando um FF ⏩ bem grande na fita, ela cresceu, conheceu meu pai, se casou etc. Eu nasci, cresci etc.

O fato é que eu ia escrever que cresci meio que apartado de meu lado suíço, mas, nossa, fiz uma viagem mental agora, enquanto escrevia esse texto, e vejo como fui influenciado pela cultura suíça. A obsessão pela pontualidade, a (quase) mania de limpeza, o lado “certinho” de ser, a busca pela perfeição. E tudo isso permeado por alguns sabores suíços que vinham da cozinha, como maçã cozida (odeio), torta de cebola (não sei escrever o nome em alemão), e os famosos salsichões (wurst) e batata rösti. Isso sem falar no prato campeão dos campeões na minha opinião, o knöpfle (ou spätzle), uma massinha deliciosa com molho de carne que minha mãe carinhosamente apelidou de “massa que cai na água”, por conta do modo de preparo — que lembra o do nhoque. É preciso abrir a massa em uma tábua e, com a ponta de uma faca grande e afiada, ir jogando os pedacinhos na panela com água e recolhendo-os à medida que forem boiando. Sabor de infância total.

E só de escrever knöpfle deu vontade de voltar ao aprendizado do alemão. Estudei por dois semestres e meio — sim, dois e “meio”, pois meu cérebro começou a derreter na metade do terceiro nível e pedir arrego “und” devolução do restante do pagamento do semestre no Instituto Goethe de Salvador. Acho que me esqueci de tudo que aprendi. Ou quase tudo. Ainda lembro como se fala 555 em alemão (fünfhundertfünfundfünfzig), a palavra mais linda e engraçada do idioma — é sério, depois joguem no Google Tradutor e comprovem. Mas esse vocábulo eu já sabia antes mesmo de começar o curso, então acho que não me lembro de mais nada mesmo…

 
Um bom prato de knöpfle é tudo que preciso para uma viagem no tempo, com desembarque imediato na minha infância

Um bom prato de knöpfle é tudo que preciso para uma viagem no tempo, com desembarque imediato na minha infância

 

Resumindo: acho, então, que sou um pouco suíço, sim. Como é engraçado esse “negócio” de escrever. A gente começa o texto sendo um e acaba como outro.

E lembro também que, quando eu era criança, minha mãe cumpria anualmente o ritual de me levar para a celebração do 1º de agosto da comunidade suíça em Salvador (pequenina, que nem o próprio país). Lembro-me que adorava a festa, sempre cheia de pequenas e pequenos descendentes da minha idade. Super me divertia. E me encantava com o tradicional desfile das lanternas de papel com uma vela acesa dentro. Volta e meia alguma queimava. Afinal, estamos falando de papel finíssimo com fogo dentro, não tem como dar muito certo mesmo. A criança azarada sempre caia no choro, claro. Aposto que, em algum ano, coube a mim a choradeira.

E hoje, 1º de agosto, é dia de celebrar aquela criança 99% ítalo-brasileira, mas aquele 1% suíço…

PARTE 2 — Destino: SuÍça

Quem pulou a introdução e veio direto pra cá, é importante saber que a parte materna de minha família é suíça (com um dedinho ali na Armênia, mas não vou me prolongar, caso contrário não termino esse texto a tempo da festa anual do 1º de agosto).

Em 2016, em uma viagem para visitar meus parentes (onde mais? Na Itália…), resolvi, meio que do nada, conhecer o país de meus antepassados maternos. A viagem foi dopadíssima, como sempre. Salvador — Genebra pela TAP Air Portugal, com conexão em Lisboa. Rendeu até um doses curtas, que você pode ler aqui. Bem, sai cambaleante do avião no destino final e tive minha primeira surpresa: cada recém-chegado tem direito a um tíquete válido por 80 minutos em qualquer meio de transporte público da cidade. Estava super grogue do remédio para aplacar o medo de voar, então não sei exatamente onde peguei ou mesmo se era uma máquina ou uma pessoa a dar o bilhete. Bom se informar logo que sair do avião. Adorei e achei muito simpático. Afinal, ninguém chega ao país já com francos suíços na carteira/doleira.

Usando o wi-fi do aeroporto, me comuniquei via WhatsApp com meu anfitrião do Couchsurfing, comunidade de pessoas ao redor do mundo que oferece teto e cama (ou sofá) de graça a quem viaja — o rivotravel já falou sobre isso aqui. Ele me disse qual tram eu deveria pegar para chegar à casa dele e em qual parada tinha de descer (sério, todas as cidades deveriam dar nomes aos seus pontos de transporte, isso ajuda demais quem não é local). Pois na hora exata programada eu desci do tram e lá estava meu anfitrião em Genebra me esperando, em uma noite meio chuvosa. A mesmíssima situação aconteceu em Berna, incrível a organização, pontualidade e hospitalidade dos suíços.

 
Confesso que achei Genebra meio sem graça. Um dos cartões-postais de lá é esse..jato-d’água no meio do lago

Confesso que achei Genebra meio sem graça. Um dos cartões-postais de lá é esse..jato-d’água no meio do lago

 

No dia seguinte, comecei a explorar a cidade, que é conhecida pelos altos preços e elevadíssimo custo de vida. Se compras de luxo são sua meta, é bom rumar logo para as ruas Croix d’Or, de Rhônes e de Rive. Claro que passei distante. Tenho zero condições financeiras — e interesse — para coisas caras, ainda mais na exorbitante Suíça. É sério, lá é tudo muito caro, pelo menos para quem não recebe salário na moeda local. Se você pensa em visitar o país, é bom preparar o bolso. Alguns sites, como esse aqui e esse outro, oferecem formas de calcular quanto você vai gastar, em média, com base no seu estilo de viajar. Nunca julguei quem vai para o exterior e só se alimenta de fast-food. Afinal, quase cai duro para trás um dia que resolvi me abrigar do frio de Genebra (primeira vez que vi neve caindo foi lá!) em um restaurante: deixei o fígado na hora de pagar a conta. Espero que tenham feito uma boa receita com ele (credo, que humor macabro, Salvatore).

Um outro choque logo de cara foi, claro, a organização e limpeza da cidade. Nada é fora do lugar. Não vi ostentação, talvez por não ter andado pelos bairros mais chiques. No primeiro dia, fiquei vagando pela parte antiga, muito bonita. O ponto alto certamente é a catedral de São Pedro (Cathédrale Saint-Pierre, em francês, língua oficial de Genebra). Construída entre 1150 e 1250, ela tem estilos românico e gótico, com uma fachada neoclássica. Originalmente era um templo católico, mas com a reforma protestante (Calvino, pai do calvinismo, passou parte de sua vida na cidade) a catedral foi esvaziada de suas imagens sacras, permanecendo assim até hoje. Lá também é possível subir na torre, de onde se há uma bela vista, e também conhecer o museu arqueológico que há embaixo da construção (se o assunto for de seu interesse; caso contrário, pule fora. Eu adorei).

Para os visitantes, há ainda opções de passeios a localidades próximas, como Chamonix, a famosa estação de esqui; e o Mont Blanc, ponto mais alto da Europa. Outros pontos turísticos da cidade são a orla do lago Leman, de onde é possível observar os Alpes; o Jardim Inglês com seu famoso relógio feito de flores (confesso que não fui: apesar de amar a natureza, não vejo muita graça em parques urbanos); a Ópera e a Place du Bourg-de-Four, a mais antiga da cidade. Aliás, para quem gosta de relógios, uma boa pedida é o museu da chiquérrima marca local Patek Philippe. Há outros museus, como o de Arte Contemporânea, o de História Natural (não vá esperando um espaço grandioso como seu “primo” mais conhecido, o de Nova York), o Etnográfico (um dos queridinhos de quem visita a cidade, junto ao CERN, Centro Europeu de Pesquisa Nuclear) e o Museu de Arte e História de Genebra (MAH). Esse último eu achei bem legal, com uma sessão maravilhosa de armas medievais, período que tanto me interessa. Outro lugar que gostei de conhecer, pelo simbolismo e peso histórico, foi o prédio europeu da Organização das Nações Unidas (ONU). Você pode conferir os dias e horários de visitas aqui (em inglês e francês). Se você não possui um documento oficial de um dos países do Espaço Schengen (apenas nações europeias) é necessário levar o passaporte. E para dicas completas da cidade há o ótimo site oficial, com versão também em português.

 
O teto desse salão da sede da ONU em Genebra é surrealmente lindo. A obra é do artista espanhol Miquel Barceló

O teto desse salão da sede da ONU em Genebra é surrealmente lindo. A obra é do artista espanhol Miquel Barceló

 

De Genebra eu peguei um trem, meio de transporte que é um verdadeiro patrimônio nacional, e parti para Lausanne. Meus planos eram visitar o Museu Olímpico (a cidade é a sede do Comitê Olímpico Internacional), a Catedral Notre-Dame de Lausanne (amo estilo gótico…pelo menos na arquitetura rs) e a sede do Rolex Learning Center, com suas formas contemporâneas interessantíssimas. Mas como não sou tão organizado que nem os suíços de carteirinha e tinha de chegar ainda naquela noite a Berna, onde meu anfitrião estaria pontualmente me esperando no ponto do tram, acabou que só deu tempo de ver o Museu Olímpico — o Rolex Learning Center ficava do oooooutro lado da cidade. É bom sempre ter uma noção de onde estão localizadas as coisas que se quer ver ao programar uma visita a uma cidade. Mas valeu a pena me dedicar a fundo a uma só atração em Lausanne. Se você, assim como eu, é amante dos esportes e das Olimpíadas, vai pirar com o museu, que, obviamente, conta com um acervo riquíssimo.

Ah, me lembrei agora de um outro motivo que me levou a ficar só no museu: minha unha encravada do dedão do pé começou a dar sinais de vida naquele dia! Pra piorar, tive de caminhar um bom pedaço até chegar ao museu, pois ele fica um pouco distante da estação de metrô mais próxima. Aliás, a linha de metrô que peguei é engraçada, uma vez que é toda em subida (ou descida, a depender da direção que você toma). Lausanne é cheia de ladeiras.

 
Rolex Center, um lindo…vai ficar para uma próxima viagem a Lausanne. Quando olho para fotos dele lembro de um queijo suíço meio derretido. Teria sido a inspiração?

Rolex Center, um lindo…vai ficar para uma próxima viagem a Lausanne. Quando olho para fotos dele lembro de um queijo suíço meio derretido. Teria sido a inspiração?

 

De estação central de Lausanne peguei correndo o trem para Berna, a tranquila capital do país alpino (muitas pessoas desconhecem esse dado). Aliás, o quesito “trem na Suíça” mereceria uma matéria só para ele. São incríveis a eficiência, limpeza, pontualidade, organização….Ok, o fato de o país ser pequenino ajuda (a Suíça é menor que o Espírito Santo, um dos menores estados brasileiros em extensão). Nas estações é possível encontrar livrinhos contendo todos os destinos e horários. Até a plataforma que o trem vai parar é previamente estabelecida com bastante antecedência! Na Itália, para citar um país vizinho, a plataforma é decidida pelos controladores minutos antes da chegada do trem, levando a correria generalizada.

Ah, em Berna eu vi duas “irregularidades”! Uma foi uma jovem “atacando de DJ” no tram, ou seja, ouvindo música (alta!) sem fones de ouvido. E na estação central havia várias pessoas fumando na plataforma, esperando o trem. Se bem que não sei se fumar em estações e ouvir música no celular sem fone são mal vistos ou proibidos na Suíça… Em ambas as situações ninguém ao redor parecia se importar.

Sobre Berna, a cidade é muito, muito gracinha. Bom ressaltar que Genebra e Lausanne ficam em cantões de língua francesa. Já Berna (e Zurique) ficam na parte alemã, que é a maior em tamanho e população. Mas todo mundo no país sabe se expressar em inglês. As outras línguas oficiais são o italiano, falado em uma pequena parte do país, ao sul, na divisa com a Itália; e o romanche, que pode ser ouvido em localidades do centro e do leste da nação e não soma nem 35 mil falantes.

Ok, depois dessa explicação linguística (porém necessária), voltemos a Berna. A cidade antiga é super bem conservada (o que não é nenhuma novidade por lá) e inacreditavelmente fofa. Um ou dois dias são suficientes para percorrer os principais pontos turísticos. E se você tiver sorte, poderá ver um urso às margens do rio Aare. Além do lindo centro histórico, é possível conhecer o Rosengarten (Jardim das Rosas), a encantadora Torre do Relógio (uma surpresa agrada os turistas a cada “hora cheia”. Mas é só uma surpresinha, nada de muito excepcional) e a Catedral. Os fãs do pintor Paul Klee (1879—1940) não podem deixar de ver o museu dedicado ao artista. Um fato curioso: apesar de ter nascido e crescido em Berna, ele era, oficialmente, cidadão alemão, por conta da nacionalidade paterna. Já adulto, migrou para a terra do pai, mas em 1933, com os nazistas controlando a Alemanha, fugiu para sua cidade-natal. E acreditem: ele faleceu na Suíça, sete anos depois de seu retorno, sendo estrangeiro em seu próprio país — Klee havia feito o requerimento junto ao governo para se tornar cidadão, mas literalmente morreu esperando. Quem leu a PARTE 1 desse texto (obrigado pela leitura, aliás ♡) sabe o quão difícil é se tornar oficialmente um cidadão suíço.

 
Berna é muito fofa. Aqui vemos parte do centro histórico com a torre do relógio ao fundo. Andar pela parte antigo da cidade foi um dos pontos altos de minha viagem

Berna é muito fofa. Aqui vemos parte do centro histórico com a torre do relógio ao fundo. Andar pela parte antigo da cidade foi um dos pontos altos de minha viagem

 
 
A cidade de Berna é cortada pelo rio Aare. A capital da Suíça não poderia representar melhor o país: pacata, limpa e linda

A cidade de Berna é cortada pelo rio Aare. A capital da Suíça não poderia representar melhor o país: pacata, limpa e linda

 

Foi em Berna que finalmente conheci minha prima — falei brevemente dela na PARTE 1 (mais ♡). A casa dela é um desbunde, bem minimalista, clean, do jeito que eu gosto. O maior luxo de todos? Uma vista incrível para os Alpes! Naquela noite, fomos todos (eu, ela, marido, filho e filha, ambos já jovens adultos) jantar fora em um restaurante de cozinha típica. Tudo programado com meses de antecedência, como é de praxe por lá. Foi um mix de sabores, na mesa e na conversa. Éramos parentes desconhecidos, mas algo nos unia. O filho (sou péssimo, não lembro o nome do filho de minha prima!) queria muito conhecer o Brasil, mas a mãe desencorajava a toda hora, temendo a violência urbana. Para quem nasceu e cresceu na tranquilíssima Suíça, o Brasil realmente inspira um pouco de cuidado, mas também não acho que nosso país seja, assim, uma zona proibida.

Ah, em Berna cometi um dos maiores micos da viagem. Não sou hipocondríaco, longe disso. Mas sempre viajo com seguro-saúde (e se eu pago algo quero mais é usar o serviço). O fato é que a unha do pé estava incomodando muito, mas muito mesmo. Então lá vou eu pro hospital que a atendente do plano, por telefone, me indicou. Chego na recepção, super limpa e organizada, e, meio envergonhado, explico a situação, uma bobagem, claro. Esperei um pouco e fui atendido. Minto, acho que aguardei quase uma hora, mas convenhamos, era só uma coisa pequena. Bem dolorida, é verdade, mas nada urgente. Só sei que fui atendido com todo profissionalismo por um médico, que muito gentilmente botou meu pé em uma bacia com água quente e iodo (com todo cuidado, cerimônia e respeito, me senti meio Cinderela, é sério) e furou um pouquinho a pele, pedindo permissão antes, é claro, para ver se a região estava infeccionada (não estava). Sai de lá com uma pomada para passar na área e um papelzinho com o nome de algumas lojas no centro onde eu poderia encontrar sapatos mais confortáveis. O que um atendimento humanizado não faz, não é mesmo? Talvez eu tenha apenas tido sorte. Em tempo: sai do hospital e fui comprar um par de tênis, mas acabei ganhando de meu anfitrião do couchsurfing em Berna ,no mesmo dia, outro par, ótimo. O que fiz? Quando cheguei em Zurique, fui em uma loja da mesma rede e em UM MINUTO estava saindo de lá com o dinheiro na mão. Devolvi os sapatos que havia comprado sem burocracia, só mostrei a nota fiscal e disse que não queria mais. Nem precisei implorar. E olha que o produto estava sem a caixa e eu tinha adquirido em outra cidade. De novo: pode ter sido apenas sorte minha. Mas que eu fiquei chocado, ah, isso eu fiquei.

Eita, e não é que a história andou sem eu nem perceber e cá estou eu já contando sobre a cidade-natal de minha mãe? Zurique é linda, e tudo ficou mais belo pois tive a sorte de ser ciceroneado por um querido amigo que morava lá na época (Adalberto, obrigado por me dar uma cama quentinha em um apartamento fofo, café da manhã por quatro dias, risadas, papos, feshação em público ao som de Beyoncé, aulas sobre a sociedade e cultura suíça, entre outros pontos que o avançar da hora não me permite lembrar). O que mais me impressionou lá? O silencio e a tranquilidade de algumas partes da maior cidade do país — a zona metropolitana tem 1,9 milhão de habitantes; ou seja, não é propriamente um lugarejo, longe disso. Aliás, o silêncio na Suíça é marca registrada — exceto a garota DJ do tram de Berna ou a música do famoso festival de jazz de Montreux. Outra coisa que me chamou ainda mais a atenção é como Zurique é absurdamente limpa, mesmo nas ruas perto da estação central de trem (Zürich HB), áreas que tradicionalmente são bem sujas e caóticas! É sério, nem uma sujeirinha no chão. Me fez lembrar de uma história de Asterix e Obelix (amo!) na qual eles vão visitar a Suíça (“Asterix entre os Helvéticos” é o nome do livro). Na trama, a mania de limpeza é abordada diversas vezes. O dono da pensão onde eles se hospedam ficava toda hora limpando o chão, enlouquecido com os clientes que insistiam em sujar o chão com a lama do lado de fora. Muito louco é pensar que meu pai, italiano super orgulhoso do passado grandioso da Roma Antiga, era simplesmente apaixonado pelas histórias de Asterix e Obelix — nas quais os romanos sempre apanham feio da dupla de gauleses e seus amigos.

 
Zurique não é a capital, como muitos pensam, mas é a maior cidade da Suíça

Zurique não é a capital, como muitos pensam, mas é a maior cidade da Suíça

 

Voltando a Zurique… A cidade oferece inúmeras opções culturais, de lazer, compras e passeios. Andar pela orla do lago é uma delícia. No verão, o clima de festa é grande, com as suíças, suíços e turistas caindo nas limpíssimas (para variar) águas e matando o “calor” que faz na estação mais quente do ano. Já o centro antigo, com suas ruas estreitas, nos transportam para séculos passados. Também vale a pena uma volta pelas margens do rio Limmat, com inúmeras construções históricas em diferentes estilos arquitetônicos. Uma delas é a Rathaus, atual sede da prefeitura. E também recomendo reservar algumas horas para conhecer o magnífico Museu Nacional Suíço, em frente à estação central de trem. O Landesmuseum (seu nome em alemão) conta, de forma bem didática, toda a história do país. É riquíssimo em obras e objetos, oferecendo um panorama bastante detalhado da sociedade helvética, da pré-história aos tempos atuais, tudo muito planejado, com uma expografia incrível e nada monótona. Nos últimos anos, o Landesmuseum passou por ampliações e o prédio histórico ganhou, quatro meses antes de minha visita, uma ala nova com arquitetura contemporânea bem bonita.

Também são interessantes os museus Kunsthaus, com obras de artistas como Van Gogh e Monet; e o Rietberg, que foca em peças da Ásia e África. Igrejas? Vá direto para duas delas. Uma é a Fraumünster, fundada em 853 e renovada várias vezes, contando inclusive com belos vitrais assinados pelos artistas Marc Chagall (1887—1985) e Alberto Giacometti (1901—1966). A outra é a Grossmünster, do século 12, ou seja, um pouco mais “jovem” quando comparada a anterior. Na Grossmünster é possível subir em uma das duas torres para admirar a vista da cidade — mas nada de elevador, são 200 degraus, bom avisar. Ambas as igrejas são austeras, mas não por isso menos admiráveis.

 
Bicicletas (meio de transporte super popular no país) em frente ao maravilhoso Museu Nacional, em Zurique. Acervo vai da pré-história aos tempos atuais

Bicicletas (meio de transporte super popular no país) em frente ao maravilhoso Museu Nacional, em Zurique. Acervo vai da pré-história aos tempos atuais

 

Se a busca é por comprinhas, o destino certo é a Bahnhofstrasse (ou “rua da estação”. Ainda lembro algo das aulas de alemão, ufa!). Lojas para diversos estilos (e bolsos) se espalham pelo grande boulevard. Para uma vista de tirar o fôlego vá até a Lindenhofplatz, no alto de uma das colinas que cercam Zurique. Para um bom chocolate suíço (verdadeiro produto de exportação do país), uma opção é a Sprüngli, rede com várias unidades espalhadas pela cidade. Ou então entre em qualquer supermercado e surpreenda-se com a seção de chocolates.

Um lugar que eu amei conhecer (obrigado por me levar lá, Adalberto) foi o Cabaret Voltaire. O espaço cultural foi fundado em 1916 e, naquele mesmo ano, foi palco do surgimento do movimento dadaísta, que tanto me fascinou quando aprendi sobre ele, no ensino médio. Ou seja, eu visitei aquele lugar sagrado para mim cem anos depois do nascimento dessa muito louca vanguarda europeia, que, de certa maneira, abriu caminhos para o surrealismo. A cidade, inclusive, fez uma vasta programação de eventos culturais para marcar a data, mas eu cheguei ao país tarde demais… O dadaísmo era fortemente marcado pela ausência de um claro sentido lógico nas obras. O movimento, totalmente caótico, foi libertário e inovador para a época, questionando os valores da sociedade burguesa e do próprio fazer artístico, usando técnicas como colagens aleatórias e objetos do cotidiano. Segundo o jornalista Christian Raaflaub, do prestigiado site Swissinfo, o dadaísmo é o único movimento cultural de importância mundial surgido na Suíça. Ou seja, o Cabaret Voltaire é um marco para a país e o mundo! Lá dentro há uma pequena livraria, loja de souvenirs e um bar. Confesso que esperava mais loucuras. Talvez tenham ficado no passado ou perdidas nas décadas nas quais o Cabaret Voltaire passou fechado.

 
O Cabaret Voltaire, em Zurique, onde nasceu o Dadaísmo, pode ser um pouco decepcionante. E as maluquices, onde estão? Mesmo assim, amei conhecer

O Cabaret Voltaire, em Zurique, onde nasceu o Dadaísmo, pode ser um pouco decepcionante. E as maluquices, onde estão? Mesmo assim, amei conhecer

 
 
Hugo Ball, um dos fundadores do Dadaísmo. Meio assustadora essa imagem, não?

Hugo Ball, um dos fundadores do Dadaísmo. Meio assustadora essa imagem, não?

 

Uma leitora ou leitor mais atento talvez tenha reparado uma coisa um tanto quando curiosa: nessa enorme matéria não há uma foto sequer minha na Suíça. Explico: todas elas estão (ou estavam, não sei ao certo) em meu computador, que atualmente se encontra em estado vegetativo por puro desleixo meu. Além disso, devo confessar que eu simplesmente amo digitar no teclado do computador de meu marido, não sei explicar o motivo, e isso ajuda a postergar o conserto do meu laptop. Se tudo der errado e meu equipamento tiver morte cerebral decretada, talvez eu tenha perdido todas as fotos que fiz na Suíça Tristeza? Nenhuma. Guardo aquela semana de novembro de 2016 em minha (péssima) memória. Sei que vivi. E isso me basta. Lógico que sete dias (e quatro cidades) são poucos para ter uma noção mais profunda de um país. Há inúmeros outros pontos que gostaria de visitar, certamente em uma segunda (e terceira, quarta…) ida para lá. Conhecer, por exemplo, uma verdadeira fábrica de chocolate, como a Maison Cailler, localizada na cidade de Broc, com direito a degustação no final, evidentemente. Ou ainda experimentar esportes na neve. As modalidades são muitas e vão além do esqui ou snowboarding, como snowmobile (uma espécie de jet-ski, só que na neve), caminhadas, patinação e até bike. Outro destino muito popular é o Castelo Chillon, com seus quase mil anos. É famoso pelo acervo de armas e objetos medievais e, por estar na beira de um lago, rende lindas fotos. Por falar em idade média, uma cidade que deve valer muito a pena visitar é Lucerna, com seu encantador centro histórico e a famosa ponte Kapellbrücke, feita em madeira, com bonitas pinturas do século 17 ao longo de seus 200 metros de extensão.

A Suíça é o melhor país do mundo? Claro que não! Apesar de figurar sempre entre os primeiros lugares nas listas do índice de desenvolvimento humano (IDH), há problemas sérios, como envolvimento em casos de corrupção e negócios suspeitos— basta lembrar de episódios recentes da política brasileira ou mesmo de grandes órgãos e empresas que têm sede lá, como a Federação Internacional de Futebol (FIFA) e a Nestlé. E o passado também condena a Suíça. Há vários documentos que comprovam ligação de banqueiros do país com o tráfico de negros escravizados da África para as Américas. Outro caso que me chocou nos últimos anos foi descobrir a existência de crianças-escravas por lá, isso nos séculos 19 e 20. “Constituindo uma mão de obra barata, muitas vezes elas eram maltratadas, mal alimentadas e abusadas sexualmente. Por outro lado, ‘garotas mães’ ou ‘marginais’ foram presas sem julgamento ou internadas em hospital psiquiátrico até os anos 1980. As autoridades às vezes ordenavam a castração e a esterilização ou a adoção forçada de crianças”, relata matéria da Swissinfo. Ou seja, nem tudo são Edelweiss, flores típicas dos Alpes. A Suíça é linda, mas tem seu lado negativo. Assim como o Brasil. Não adianta, amigas e amigos, o mundo é ambíguo. E viajar tem esse enorme poder: nos faz ver melhor as qualidades e defeitos de nossos países — e até de nós mesmos.

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