Golpe de falsos hotéis: quase fomos vítimas — e em um conhecido site de reservas

Nos preparativos para nossa ida à Itália, pesquisando por hotéis em Roma no site Booking.com, eu e meu marido nos deparamos com um que parecia ser perfeito. O preço era super bom, tinha fotos maravilhosas, além de ser super central. Começamos a nos empolgar. Sabe aqueles quartos que parecem de luxo, com lençóis alvíssimos, edredons com cara de confortáveis, decoração minimalista, iluminação na medida, banheiros enormes em mármore? Pois então, era bem assim. Desde o começo, confesso, eu já estava suspeitando, tipo: "Poxa, esse preço está muito bom pra esse padrão de hospedagem”. Lá na página aparecia como se fosse uma baita promoção, um desconto promocional especial (e quem não gosta de se sentir especial?). A gente foi lendo mais e começamos a ver outras benesses, como bicicleta de graça disponível para que os hóspedes pudessem dar suas idílicas voltas pelas redondezas e até transfer gratuito para o aeroporto. O sinal, que já estava no amarelo, acendeu de vez para o vermelho, porque táxi em Roma é caro. Eu falei: “Rafa, isso aí tá com a maior cara de golpe”. E olha que eu sou uma pessoa bem ingênua às vezes, mas era tudo tão maravilhoso que me pareceu errado. Rafa salvou as fotos do site e jogou no Google Lens para ver se encontrava fotos similares em outros perfis. E apareceu justamente que eram fotos reais, só que de outro hotel, em outra cidade. Então eu sacramentei: é cilada.

 
 

Acho que esses salafrários contam com um mecanismo psicológico das pessoas, que é desencadeado ao ver aquelas fotos tão belas por um preço tão bom. Quem está pesquisando começa a sonhar. “Poxa, vou poder ficar bem num lugar super bacana e por um preço muito bom." Quem não gosta? Então, acho que a gente se ilude e baixa a guarda, desligando o “desconfiômetro”. A dica é suspeitar quando é muito bom. Como já diz o antigo ditado, se a esmola é grande, todo santo desconfia. E por isso é importante pesquisar bastante, porque quando você começa a ver um, dois, cinco, dez anúncios, você vai mais ou menos sacando a média de preço daquela cidade, de cada bairro, daquele tipo de hospedagem. Se é um quarto coletivo ou individual, se é para uma ou duas pessoas, se tem café da manhã, e quanto ele cobra por tudo isso. O viajante passa a ter uma média, e quando uma opção sai muito fora da curva dos preços, é motivo mais que suficiente para ficar com o pé atrás. Tanto é que acabamos fechando com uma pousada no mesmo preço, mas infinitamente mais simples. O banheiro não é de mármore e não se encontra dentro da suíte, e sim do lado de fora, no fim do corredor.

 

Fotos do suposto hotel Imperial Rome Residence, que quase nos convenceram

 

Semanas atrás, o assunto tomou o noticiário após a empresária e influenciadora Fabiana Justus cair em um golpe de reserva mentirosa de um hotel em Fernando de Noronha. Ela contou o caso ao jornal O GLOBO: “A gente tava pesquisando os hotéis. Indicaram muito um hotel pra gente, e a gente entrou no Google, pesquisou o hotel. E aí assim, sabe quando a página principal do Google aparece as fotos, hotel, etc., e apareceu o endereço oficial, assim, lá no Google, sabe? E a gente ligou lá na página que dá pra esse hotel. Quando a gente ligou, atendeu um moço (dizendo) o nome do hotel. E ele falou, "Oi, aqui é do Hamares", (que era) o hotel que a gente queria ficar. E aí a gente perguntou sobre os quartos. Ele começou a explicar todos os quartos, os tamanhos dos quartos, como que eles eram, qual que era melhor, foi falando os preços. Então assim, em nenhum momento dava pra desconfiar que isso era um golpe. E aí a gente fechou o quarto do hotel que a gente queria", disse Fabiana.

 

Fotos de divulgação do Hamares Boutique Hotel, em Fernando de Noronha: influenciadora caiu no golpe do falso anúncio com preços convidativos

 

Em suas redes sociais, ela também desabafou: “E aí, o cara passou o Pix. O Pix era o nome da rede de hotéis. Então, assim, tudo tava muito certinho. Não tinha como a gente saber que isso era um golpe. E aí, a gente fechou o hotel. Fechamos o quarto que a gente queria e viemos pra Noronha", disse. Ela só descobriu o que tinha acontecido ao chegar no hotel. Diante da negativa da reserva, se deram conta de que os pagamentos foram feitos para golpistas. “(O funcionário) falou: ‘olha, esse número de telefone não é o nosso’. “Gente, nessa hora a gente já gelou. Como assim? E aí, a gente descobriu basicamente que a gente fechou o hotel fake, a gente não tinha o quarto do hotel", relatou Fabiana.

O Booking.com, que foi o site onde quase caímos na cilada da hospedagem em Roma, tem uma página de orientação aos internautas para não cair em golpes ou falsos anúncios (leia na íntegra aqui). Eles alertam: “Nunca pediremos que você informe os dados do seu cartão de crédito por e-mail, telefone, SMS ou WhatsApp. Nunca pediremos que você faça uma transferência bancária que não esteja de acordo com as informações da política de pagamento contidas na confirmação da reserva. Caso receba um e-mail que pareça ter sido enviado pelo provedor dos serviços de hospedagem ou pela Booking.com, verifique cuidadosamente os dados da confirmação da reserva antes de clicar em qualquer link. Em caso de dúvida e antes de agir, entre em contato com nossa equipe de Serviço de Apoio ao Cliente”.

Mas mesmo assim, a dúvida persiste: como pode uma plataforma global disponibilizar um anúncio falso em sua página oficial? Mandei para a assessoria de comunicação da empresa um e-mail com três perguntas. Como é possível que anúncios fraudulentos ou falsos de hospedagem apareçam em uma plataforma como o Booking.com? Quais medidas o Booking.com efetivamente adota para identificar, prevenir e remover anúncios fraudulentos de sua plataforma? Se um cliente for vítima de um golpe relacionado a um anúncio falso no Booking.com, quais medidas ele deve tomar e que tipo de assistência o Booking.com pode oferecer nesses casos?

 

Alguns dos comentários no anúncio do “hotel romano” (que não existe)

 

Além disso, mandei fotos dos prints de tela do falso anúncio, com as descrições do “hotel” e as respectivas fotos copiadas de outro site. A resposta chegou logo, mas foi meramente protocolar e vaga (certamente uma nota oficial já pronta, dada a velocidade do retorno ao meu e-mail). Segue: “Na Booking.com, garantir que nossa plataforma seja segura e confiável para todos os clientes é nossa prioridade. Estamos constantemente otimizando medidas de segurança robustas que temos em vigor para protegê-los e levamos o processo de verificação de propriedades extremamente a sério, incluindo verificações regulares realizadas por nossas equipes de segurança e serviços de atendimento a parceiros e clientes. Em casos raros de problemas com propriedades específicas, investigamos imediatamente a situação e podemos remover acomodações da plataforma caso seja constatado o não cumprimento dos nossos termos e condições”.

Ou seja, é sempre um tiro no escuro. Assim que reservamos os hotéis para nossa viagem, fomos nos sites oficiais deles (os que tinham, pois alguns são muito simples) e mandamos mensagem perguntando se estava tudo OK. Três deles já responderam que sim. Faltam dois. Oremos para que não sejamos vítimas também de falsos anúncios.

Em entrevista sobre o assunto ao Jornal da EPTV (afiliada da TV Globo em Campinas), o delegado Oswaldo Diez disse que é fundamental desconfiar antes de transferir qualquer valor. Caso a pessoa seja vítima, deve acionar o banco para informar o ocorrido e solicitar a devolução do Pix por meio do MED (Mecanismo Especial de Devolução). Além disso, é necessário o registro do Boletim de Ocorrência para que o caso possa ser investigado, especificando o crime de estelionato ou fraude eletrônica. A matéria orienta ainda a dar print em tudo o que for possível: fotos e descrição dos anúncios e também conversas com o golpista por e-mail, WhatsApp ou outros meios de comunicação. Segundo a McAfee, empresa global de segurança online, se a compra foi por cartão de crédito é possível solicitar o estorno ou a contestação da transação (chargeback) — além disso, é recomendável o bloqueio do cartão comprometido para evitar novas cobranças.

Nem na hora de relaxar os golpistas dão sossego! É bom estar atendo para não embarcar em férias frustradas.

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