Viajei: SOCORRO (Salvador–Brasília, 2026) — voo de ida e volta
ida: VOO SALVADOR–BRASÍLIA — 2026
A minha viagem mais recente foi no final de julho de 2026. Destino: Brasília, para a comemoração do aniversário de 30 anos de uma sobrinha que mora na capital federal. Daqui de Salvador fomos eu, meu marido e minha mãe. Na semana anterior ao voo de ida, o pânico já começava a bater forte. Resultado: resolvo me ocupar ao máximo. Mente vazia, oficina do panicado. Comprar quiabo? Deixa que eu vou. Duas horas depois, acabou o detergente? Não tem problema, volto no mercado numa boa. Será que meu marido notou tanta proatividade?
Deu certo por um tempo. Mas os temores, os malditos, sempre chegam, invariavelmente.
Deito na cama e, nos segundos antes de alcançar o livro, penso no voo. Na mesma hora, sinto o intestino revirar. Levanto e começo a separar as roupas que vou levar na viagem. Organizar tudo com uns três dias de antecedência me deixa mais tranquilo, sempre com a ajuda de uma listinha de papel, para ir dando “ok” nos itens que já estão na mala. Separo uma cueca vermelha para usar no trecho de ida. Mas me pego pensando: vermelho lembra sangue. Acidente! Meu marido, em seguida, diz: vermelho é vida, sangue que pulsa no corpo. Ok, tudo é questão de perspectiva.
E com qual camisa vou voar? A preta? Não! É o símbolo do luto. A branca, então. Mas na cultura japonesa, branco expressa a perda de alguém. Socorro!
Cinema. Boa ideia ir à sala escura, esquecer por duas horas o voo que não tardará em chegar. Vou ver Almodóvar. Isso vai me tirar do nervosismo. Natal Amargo. Achei o filme mediano. Na volta, penso em aproveitar para passar na casa de uma irmã para deixar uns potes que ela pediu e, além disso, me despedir. Na mesma hora afasto a possibilidade. Despedida? Por quê? Não vou voltar? Melhor não. Chego em casa e olho a previsão do tempo para o dia do voo no aplicativo do celular. Alerta de ventos e chuvas. Quase desfaleço.
Detalhe da previsão do tempo para a semana do voo de ida: medo
Ocupar a mente. Louças sujas na pia são a atual meta. Entre espuma e água, do nada começo a cantar My Way, com a voz de Frank Sinatra em mente (e que começa justamente com “and now the end is near”, ou “agora o fim está perto”, em português). Imediatamente grito: que “end” o quê!? Já engato um Drunk in Love de Beyoncé.
Um amigo quer me ver. Rodrigo. Na antevéspera. Digo que estou já em modo alerta para viajar. “Nos vemos na sua volta, então”, ele diz. Isso me tranquiliza. Acho que vou tomar como hábito agendar compromissos para depois do retorno. Me dá um senso de “vou regressar para fazer o que planejei”. Engana o cérebro.
Dia anterior, estresses desnecessários. Odeio fugir da rotina na véspera do voo. Fico nervoso, irritadiço.
Claro que, faltando 24 horas pro voo, bate aquela nítida certeza de que “sim, o meu avião cairá”. Curioso que a gente sabe que voar é super, super seguro, mas a gente sempre crê que justo na nossa vez, exatamente na nossa vez, o acidente virá.
Dia nasce. Fico com medo de abrir a janela e estar um Armageddon cinza chumbo. Mas a vista me presenteia com um dia até que promissor, o cinza não venceu totalmente o azul, pelo menos não naquele bendito dia. Amanhece meio titubeante entre tempo chuvoso e firme, mas na metade da manhã o azul vinga forte. Eu particularmente odeio sol, mas nada alegra mais um panicado do que o astro rei espantando a água dos céus.
Vista da janela de meu quarto logo ao acordar e horas depois, antes de sair de casa para o aeroporto: ainda bem que o tempo abriu
Nos últimos preparativos da mala, sem explicação, coloco uma música que sempre me emociona muito e me coloca “pra cima”: Tá Escrito, do grupo Revelação.
Minha mãe, dias antes, liga e diz: para a ida ao aeroporto, já acertei tudo com um taxista que conheço, passo aí na casa de vocês às 14h. Já começo odiando: motorista grosso, carro super sujo (fedia! Juro!), ar desligado, som alto. Tudo pra me estressar. Coloco logo no fone de ouvido uma sequência de nada menos que dez horas de White Noise. Chamado de “ruído branco” em português, é um “sinal sonoro que contém todas as frequências na mesma potência. Esse barulho faz com que o limiar auditivo atinja seu nível máximo, o que significa que, na presença desse tipo de som, os estímulos auditivos mais intensos têm menos capacidade de ativar o córtex cerebral durante o sono”— segundo matéria da BBC BRASIL. Ouvir isso me relaxa muito.
Aos trancos e barrancos, chegamos ao aeroporto de Salvador, que estava relativamente tranquilo. Ótimo. Adoro quando ele está assim, sem caos, confusão e gritaria.
Porém esqueça a calmaria do check-in e da fila (pequena) para o raio-x. Embarque extremamente caótico. Acontece algo que nunca vi na vida. A fila de passageiros para entrar no avião aguarda colada à parede esquerda do finger (aquela passarela que liga o terminal à aeronave), dividindo espaço com quem desembarca margeando pela outra parede. Inédito. Será um novo padrão da operadora que comprou o aeroporto na privatização? Mas nem ligo, confesso. Já estou bastante grogue com o remédio que tomei no taxi xexelento.
Avião começa a andar. Decolo ouvindo No Recreio (Cássia Eller) e The Greatest Love of All (Whitney Houston). Na sequência, Gimme More (Britney Spears) — bem alegres e fechativas, tudo que eu mais preciso ouvir (e dublar) no momento mais tenso pra mim, que é quando o piloto acelera na força total e sai correndo pela pista rumo aos ares. O avião estabiliza: ufa! Os (muito) tremores da decolagem ficam para trás, após longos minutos.
Britney Spears como uma aeromoça no clipe de Toxic
O voo foi aquela groguência, dorme, acorda, dorme de novo. Sem anotações no bloco de notas do celular. O pouso é sempre o auge, com direito a um belo pôr do sol do visto do céu do Cerrado na época seca, lindo demais.
VOLTA: VOO Brasília–Salvador
Na véspera já tomo uma dose maior do remédio, que habitualmente uso para dormir, por recomendação da psiquiatra, claro. Caio no sono relativamente rápido. Fico inquieto com a possibilidade de ficar muito lento de manhã cedo e demorar pra acordar, pois o horário vai ser apertado. As malas não foram fechadas, o que me deixa ainda mais ansioso. Como já disse, odeio correria em dia de viagem.
Plot twist: acordo de madrugada com sintomas de infecção alimentar, daquelas bem severas. Idas ao banheiro a cada cinco minutos. Cancelamos a passagem de volta. Perdemos uma grana, mas não tinha outra opção. Aí fiquei na noia: será que escapamos de um acidente? Seremos um daqueles casos de pessoas que desistem de voar e se livram de uma queda? Mas minha mãe está no voo, disse que vai embarcar mesmo sem a gente! Fico acompanhando o trajeto da aeronave pelo app FlighRadar24, só para garantir. Tudo parece correr como previsto.
Acompanhando o voo de volta de minha mãe pelo aplicativo Flightradar24, só para garantir
Recuperado da infecção, compramos a passagem para o dia seguinte. Minha amiga que nos recebeu em Brasília, já saudosa, diz: “ah, peguem pra daqui a dois dias. Vai que esse avião…”. Ela interrompe a frase no meio, mas foi suficiente pra amedrontar. Para todo panicado, meia palavra de gatilho já basta. Nosso amigo, marido dela, vendo meu nervosismo, tenta atenuar: “você tem algum ritual na véspera?”. Dada a minha negativa, ele completa: “então é só segurar na mão de Deus”. Socorro, eu sou ateu!
Vejo no G1 uma notícia sobre atualizações mais recentes do caso do acidente da Voepass em 2024. Claro que pulo o artigo na hora. Deus que me proteja (Deus, eu não acredito em você, mas acredite em mim, por favor).
Em um ato de extremo desespero, tento rezar. Não durou trinta segundos. Zero aptidão. Meu marido vem e diz: “você sabe que comigo ao lado você sempre estará bem, um astrólogo indiano disse que eu não vou morrer em acidentes”. Como eu também não acredito em astrólogos, o pavor permanece inabalável.
No dia, chegando ao aeroporto, minha amiga avista um avião chegando para o pouso em Brasília. Passamos por uma espécie de túnel na pista de carros e eis que o avião some. Mistério! Medo! Penso em ativar o FlightRadar24 só para garantir que a aeronave pousou e que simplesmente não vimos, mas o remédio já está me deixando mais pra lá do que pra cá.
É oficial: estou grogue. Não conseguimos pegar a primeira fileira, a minha preferida (o rivotravel já abordou isso nesta publicação aqui), mas pagamos para ir na saída de emergência, com mais espaço para pernas e menos sensação de claustrofobia para meus 1,87 metros de altura. Eu, meu marido e outros quatro assentos vazios — um do meu lado e outros três do outro lado do corredor. Que reconfortante. “Hoje é com vocês”, diz a aeromoça, se referindo à abertura da porta em caso de pouso forçado. Tento ler o panfleto no qual estão as instruções. Entendo vagamente. Meu marido me tranquiliza dizendo que captou tudo. Assim espero. Mas penso: “melhor não precisar usar o conhecimento dele sobre como operar essa porta”.
Sentado na saída de emergência. Ainda bem que meu marido não estava grogue e leu o panfleto sobre como abrir a porta caso necessário
Na decolagem, ouço o novo disco de Madonna (Confessions II) enquanto recito o abecedário da Xuxa com vozinha de criança (isso ajuda a enganar o cérebro — o rivotravel já abordou esse método inusitado nesta publicação daqui). Muita turbulência assim que os pneus descolam do solo. Chacoalha pra lá e pra cá. Pânico. Acaba a música, acaba a turbulência. Choro e uno as mãos numa…”reza?”
Mas eu não acredito em Deus!
Passei o voo semivivo.
Na hora de chegar a Salvador, me alegro com Marina Lima (Fulgás) no fone de ouvido — foi um pouso pavoroso, assim como tinha sido a decolagem, mas pelo menos “foi”. E por falar na grande Marina Lima, comprei há meses o ingresso para um show dela aqui na minha cidade. Tá vendo? Fazer planos para o futuro pós-voo ajuda, mesmo que de forma inconsciente. Os deuses que eu não acredito são bondosos comigo.