A doença de Lito Sousa e o medo da morte
Você provavelmente ouviu falar, nas últimas semanas, do anúncio da doença do influenciador Lito Sousa, do canal Aviões e Músicas, que há mais de quinze anos desmistifica a aviação e é muito acessado por quem sofre de medo de voar, justamente pela didática fácil que o comunicador tem para explicar aos quase quatro milhões de seguidores todos os aspectos desse assunto tão temido por nós, panicados — e admirado também, como é meu caso, pois sempre me interessei pelo mundo dos aviões.
Resumindo: Lito foi diagnosticado com a rara e agressiva doença de Creutzfeldt-Jakob, que ainda não tem cura. A família busca acesso a tratamentos experimentais. Na quarta-feira, 26 de agosto, ele divulgou nas redes um vídeo gravado no dia em que ficou sabendo do diagnóstico. "Eu não tenho medo de morrer. Eu não tenho. Não tenho, porque eu vivi uma vida boa, uma vida que eu nunca fiz mal para ninguém", afirma, acrescentando que quis fazer o registro enquanto ainda tem capacidades cognitivas. Ele se mostra confiante. “O jogo só acaba quando termina. Já vi o Palmeiras virar para cima do Botafogo muito depois do tempo regulamentar", comparou.
Eu já vi inúmeros vídeos do Aviões e Músicas, seja para lidar com minha própria aerofobia ou para me inspirar em ideias que pudessem se transformar em pautas para o rivotravel.
A doença de alguém famoso é sempre alvo de escrutínio por parte da mídia e de seus fãs. O assunto é tratado sob diversos prismas, nem sempre da ótica humana. O temor pela finitude, por exemplo, muitas vezes é deixado de lado. Ler sobre alguém que está lidando cotidianamente com a morte (não estamos todos?) escancara justamente o mal-estar que a sociedade ocidental contemporânea tem a respeito deste tema.
Eu tenho medo de morrer, e isso não é vergonhoso e nem se deve pelo fato de ser ateu. Tenho medo de sofrer, da dor física e psicológica — sendo que desta última eu tenho uma amostra grátis cotidiana por conta de meu transtorno bipolar que por inúmeras vezes me derruba em profundas crises de depressão.
Eu tenho medo de morrer em um acidente de avião. E não, ter um vislumbre do motivo que me leva a ter essa limitação, como já expliquei aqui no rivotravel, não torna as coisas mais fáceis ou compreensíveis. A vida é mesmo um mistério.
Mas acho que hoje eu tenho um pouco menos de medo de voar — e de morrer. Afinal, as duas caminham de mãos dadas por essa turbulenta via chamada vida. Não sei explicar o que ocorreu nos últimos anos que levou a isso. Não me sinto iluminado. Talvez ter passado sem muitas feridas pela pandemia do COVID-19 tenha criado uma casca mais grossa em mim. Todos nós sofremos, em maior ou menor grau, com mais ou menos privilégios, com a possibilidade da morte naqueles anos difíceis.
Ler sobre aviação ajuda. Pode não curar nosso pânico, mas nos faz entender que um avião sair do solo é pura física, assim como uma maçã cai (cair? Isola! Minto, sou menos supersticioso hoje, fruto de uma visão mais pragmática do dia a dia). Ainda fico aflito quando vejo uma notícia sobre um acidente aéreo. Mas tomo a decisão consciente de não clicar na matéria, de buscar outro site, sair do celular, ler um livro, que seja. Ignorância, às vezes, é sabedoria. E, por enquanto, com a ajuda de remedinhos — até quando? Aí é só com uma decisão conjunta com minha psiquiatra.
Além do canal no Youtube, Lito mantém um site — o avioesemusicas.com —, no qual também disponibiliza um curso para quem sofre com aerofobia
Lito não tem medo da morte. Eu ainda tenho. Menos que no passado, mas tenho. Parafraseando o título do famoso filme do cineasta italiano Federico Fellini, E la aeronave va. O barco segue, mesmo que essa vida que mantém o rumo às vezes não seja a de pessoas que amamos. Ou a nossa. Um dia chegará para todos. E por probabilidade científica, não será de acidente de avião. Anteontem emitimos as passagens aéreas para um mês na Itália, de norte ao sul. Prefiro gastar meu tempo pesquisando sobre as cidades por onde passaremos. Com medo? Claro. Mas já na dieta para minimizar os estragos que a culinária italiana fará em minha bela silhueta já mezzo rotunda.
É a vida.