Aeroportos pequenos: uma forma mais humana de viajar?

Eu não gosto de suspense. Se coloquei uma interrogação na manchete desta matéria, já respondo: sou fã de aeroporto pequeno. Acho tudo mais tranquilo, as dimensões e distâncias menores me deixam menos ansioso, fato que, como panicado que sou, sempre me alegra. Claro que não é unanimidade. Procurando entrevistados para esse texto, por exemplo, me deparei com pessoas com medo de voar e que preferem grandes terminais aeroportuários, pois o contrário, segundo elas, significa voar em aviões menores, como turboélices. Já adianto que uma coisa nem sempre tem relação com a outra. Sempre que eu viajo para a Itália, vou para a diminuta Brindisi, e ao chegar lá, os passageiros não são recepcionados com cômodos fingers (aqueles corredores que ligam a aeronave ao desembarque). Cada um que lute contra as intempéries e desça de escada com suas malas, direto na pista. E sempre voei para lá em aviões do tipo Boeing e Airbus, para mais de cem pessoas. Mas uma coisa é certa: modelos enormes, para até 400 passageiros (ou mais, a depender da configuração de assentos), costumam passar longe desses lugares. Para felicidade de quem gosta de menos aglomerações e mais calma.

 
 

Para escrever aqui, entrevistei duas viajantes profissionais. A trabalho ou lazer, ambas estão sempre fazendo a bagagem ou a mochila e partindo — a arquiteta uruguaia Alejandra Muñoz atualmente mora na Bahia e a gerente de UX (experiência do usuário) baiana Caroline Miranda reside em Berlim, na Alemanha.

Caroline conta que começou a dar valor a aeroportos pequenos quando passou a viajar mais constantemente, a trabalho ou a passeio. Quando as viagens passaram a ser mais frequentes, às vezes até com curta antecedência de planejamento, o tempo passou a ser cada vez mais precioso. Ela afirma que passou a buscar uma viagem mais ágil, ficando o mínimo de tempo nos aeroportos. Nesse cenário, relata a baiana, passou a observar que os aeroportos menores tornavam as viagens muitas vezes mais práticas. Ela elenca os benefícios: em geral são mais próximos aos centros urbanos, são fáceis de se deslocar, são mais organizados e, como possuem um volume menor de tráfego, têm menos atrasos. Além disso, a proporção menor traz uma sensação mais acolhedora, menos caótica. Menos estímulos, menos gente (e sobre isso eu não poderia estar mais de acordo).

 

Aeroporto de Koh Samui, na Tailândia, em foto de Caroline Miranda. “É fofo, tem iluminação natural, jardins internos e tem até comida de graça, uma ‘sala vip’ para todos”, afirma a baiana

 

Já Alejandra toca em outro ponto importante. “Embora, graças à popularização das viagens, eu, como simples assalariada, consiga passear e me mover pelo mundo a preços acessíveis, não gosto do turismo de multidões e tenho ojeriza ao ‘espírito de manada CVC’. Portanto, em princípio, aeroportos pequenos diminuem a ideia de massificação das viagens e dificilmente conseguem comportar grandes grupos turísticos”, afirma.

Aeroportos costumam deixar Caroline ansiosa por diversos motivos. “Seja o medo de perder o voo, de não acompanhar alguma mudança de última hora, a quantidade de pessoas no mesmo caos... O que acontece nos aeroportos menores é que tudo isso também acontece, mas em proporções menores, o que dá uma sensação maior de controle”, pontua. E não ter aviões enormes chegando toda hora também contribui, para Alejandra, a formar um ambiente menos estressante. “Como disse (o escritor irlandês) Oscar Wilde, viajar é confiar em terceiros. Nos pequenos aeroportos, costumam operar aviões de médio e pequeno porte, então tenho a sensação de que esses "terceiros" são menos impessoais, que o sujeito passageiro não é apenas um número”, diz a arquiteta.

 

“O (aeroporto) de Porto Seguro eu lembro que era tudo de madeira, com uma escala bem casa de bonecas”, diz Alejandra. E parece mesmo uma casinha. Crédito: Aeroporto Internacional de Porto Seguro/divulgação

Avião da Gol em frente ao terminal em Porto Seguro. Crédito: Aeroporto Internacional de Porto Seguro/divulgação

 

Agoniada: assim se define Caroline quando é obrigada a passar por aeroportos como Schiphol (Amsterdã), Charles de Gaulle (Paris), Barajas (Madri) ou Frankfurt. Para ela, são todos enormes, onde só a tarefa de se orientar já pode ser um grande desafio. “Em muitos deles você até precisa pegar transportes internos, seja ônibus ou metrô, para se deslocar”, explica. Fora que, prossegue Caroline, são aeroportos principais, com muito fluxo de gente, o que requer mais atenção ao seu entorno. “E, claro, são aeroportos "gargalos", uma tempestade ou um simples cancelamento de voo pode afetar todos os outros voos em efeito cascata. Isso já é tão comum que em Amsterdã há um hotel Ibis em frente ao aeroporto com uma grande estrutura já dedicada aos passageiros que tiveram problemas. Isso acontece bem menos em aeroportos menores”, compara.

 

“Há aeroportos, como o de Montevidéu (Uruguai), que você apreende como um objeto finito, que não tem implícita a neura de expansão futura. Ele é um projeto ‘fechado’, sem perspectiva de ampliação a médio prazo. Embora seja um equipamento de porte médio comparado com outros terminais aéreos internacionais, resulta pequeno ao olhar, dando uma sensação de que você consegue ir de uma ponta a outra em curta caminhada”, explica a arquiteta uruguaia. Crédito: Gerardo Silveira/Creative Commons

 

Por ser arquiteta, quando está com tempo hábil, Alejandra costuma admirar a arquitetura das grandes estruturas e reparar nos detalhes desses equipamentos colossais. Para ela, todos os grandes terminais de transportes, incluídos os aeroportos, são uma espécie de tributo à mobilidade e quase uma apologia à dimensão nômade do ser humano. Mas ela ressalta que, quando se está no meio de uma conexão curta, os grandes aeroportos têm um efeito esmagador no indivíduo: tudo parece mais tenso, você se sente um “fluxo quantitativo”, explica a arquiteta, e não uma pessoa viajando. “A sensação de ubiquidade e a estética padronizada dos grandes aeroportos reforçam a ideia do que Marc Augé (antropólogo francês) chamou de não-lugar. É aquele contexto, digamos, insípido, em que você fica desorientado pela mesmice ou, pior, guiado por uma lógica previsível de um esquema de circulações e espaços com as mesmas texturas, os mesmos elementos, a mesma sinalização, onde toda particularidade cultural e especificidade local parecem aniquiladas pela lógica da eficiência globalizada”, diz.

 

“Dos aeroportos pequenos, tenho boas lembranças de Bodø, na Noruega, com um único cara fazendo tudo: check-in, encaminhamento de bagagem até a aeronave, controle de embarque dos passageiros e até a retirada dos cones e sinalização aos pilotos para decolagem do avião”, relembra Alejandra. Crédito: Øystein Løwer/divulgação AVINOR

Aeroporto de Bodø, na Noruega. Crédito: Øystein Løwer/divulgação AVINOR

 

Aeroportos menores, de fato, podem ser mais tranquilos, menos caóticos, possibilitarem que o passageiro chegue rapidinho ao avião. Até o humor dos funcionários (check-in, raio-x etc.) às vezes parece melhor. Mas Caroline lembra que nem tudo são mil maravilhas. “Tem as desvantagens também, como uma baixa infraestrutura, ausência de staff para auxiliar diante dos problemas, e se for em horários inconvenientes como na madrugada, às vezes não é possível nem encontrar algo para comer. Passei por isso recentemente nos aeroportos de Zhangjiajie na China e de Antalya, na Turquia”, diz a baiana. “Quando estou a trabalho, aeroporto grande ou pequeno me entedia. Quando estou de férias e sem pressa, qualquer trânsito me resulta leve”, afirma Alejandra, oferecendo uma boa perspectiva.

Mas eu, particularmente, prefiro aeroporto pequeno. Estruturas menores desafiam menos meus nervos, mesmo quando estou medicado.

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