O bicho que voa
O príncipe olhava para o alto e sabia que o dia em que teria de subir e domar o bicho alado estava muito próximo. Quando fizesse quinze anos, e isso era dito desde que ele era criança, iria montar as costas cheias de penas brilhantes como óleo ao sol, supostamente deliciosas ao toque e ao roçar da seda das vestes, e alcançaria voo com aquele animal selvagem, símbolo de seu povo indomado e de sua família real. A fera. As asas. Passaria sobre o castelo, as florestas mais impenetráveis, as praias sem vida, com pleno controle da trajetória do voo que daria, entre o nascer e o pôr do sol, a volta em toda a ilha e voltaria para a aclamação popular. Seu destino estaria sendo concretizado, o que sempre foi esperado dele. A mão que doma o bicho é a mão que controla o reino.
Era aquilo que a profecia esperava dele, que o pai e a mãe davam como certo.
As mãos suadas, imperceptíveis lagunas salinas.
Ele não gostava do céu, do azul, do azul sem fim, o azul sem fim e pálido, um controverso desinteresse aterrador. A única vantagem seria ver do alto a totalidade de seu verdadeiro amante, o mar azul, azul sem fim, voluntarioso com seus segredos totalmente inexplorados não só pelo príncipe. O mar que era tenebroso para alguns, para todos ali, mas que desde cedo ele sabia que era seu, que era seu destino. Nenhuma pessoa de seu clã, no comando há gerações, havia subido em um barco, avançado um metro além da costa.
É a profecia, dizia o oráculo. A profecia de que o mundo particular e o mundo todo conhecido ruiria quando o primeiro habitante galgasse as ondas e fosse para além, para onde já não seria mais possível ver a terra onde estavam assentados há séculos. Que para cima estava o futuro, para muito acima, onde a ave virava um diminuto ponto até sumir totalmente.
Nas noites agitadas, principalmente nas noites quentes, o príncipe acordava às 4h, muito antes de sua ama chegar com o café da manhã, seguida por sua professora com os cadernos de capa de madrepérola, e encarava aquele sem-fim do alto, do alto de sua torre. Do alto da torre às 4h, o alvo de sua curiosidade era um bloco preto, um monólito calmo que, deitado, ronronava uma doce cantilena que só ele entendia. O negrume do oceano se misturava ao do céu àquela hora e tudo virava uma só coisa, que somente ele poderia, com dedo, apontar o horizonte e identificar a exata linha onde o paraíso terminava e onde o tormento tinha início. Aquele tapete que não sustentava a menor pisada, liso, parecia convidá-lo para uma sutil dança, uma comunhão. Mas ele não tinha coragem, afastava os pensamentos dando tapinhas na fronte. E logo o sol chegava para revelar o céu lilás e rosa, desvelar a fronteira, a linha do horizonte, mas o mar continuava na convidativa escuridão.
Entre o fausto desjejum e o início das entediantes lições, tinha parcos minutos para pensar nela, ela que fora enviada para o degredo no interior da ilha. Ao conquistar o coração do jovem sucessor do trono, selou o futuro amargo. O azar de ter nascido plebeia e filha de quem do mar amaldiçoado ousa tirar o sustento. A camada mais baixa da humanidade.
“Mestre, e se eu rasgasse o mar e não o céu?”, perguntou um dia o príncipe àquela que estava ali para ensiná-lo a filosofia dos antigos. “Não, não, não, não queremos isso, você não quer isso”, respondeu, voltando ao assunto dos estudos.
Mas ele queria.
“E qual é a diferença do medo do alto e do baixo, o medo de voar e o de navegar?”.
“É diferente”.
“É diferente como?”, insistia o jovem.
“As profecias”.
Evocar os textos antigos de gerações passadas era o que faziam todos aqueles que defendiam que o mar, assim como o lago no centro da ilha, única porção de água que ousava profanar tal território insular, era território inimigo do bem-estar de todos. O que não sabiam é que o herdeiro do trono, na véspera de completar quinze anos, conseguiu se esgueirar para fora do palácio, passar escondido em um traje de monge pelas ruelas estreitas da capital e seguir rumo ao proibido interior. Por meio do mato, imaginou seguir os passos de quem o adorou como um deus vivo. Andou por três horas, rasgando a pele nos espinhos dos cipós suculentos que pendiam preguiçosamente das árvores. Quando o sol já estava quase em cima de sua cabeça e a luz era filtrada por galhos e folhas, formando finos feixes, avistou, primeiramente embolado com a paisagem para depois se revelar por completo, aquele espelho-d’água. Quando chegou lá, o primeiro depois de poucos outros homens que lá já haviam estado, todos antes da ordem real com pena de morte, olhou.
E nada de especial viu.
Era apenas uma lagoa de proporções até mesmo modestas, meio pantanosa, muito diferente do que se cochichava aos cantos na cidade. Ali havia morrido afogado seu antepassado, o primeiro homem a pisar naquela ilha, vindo pelo mar. As histórias ora falavam em monstros, ora em ninfas sedutoras. Uma fragrância sulfurosa entorpecia os sentidos.
A profecia.
Descansando no espelho que refletia o céu estavam pelicanos azuis, centenas deles. Quando o príncipe chegou, alguns poucos se dignaram a olhar para o visitante de forma desinteressada, para depois destorcer o pescoço e voltar a encarar o nada.
Era aquilo. Não era nada digno de temor. Não viu criaturas monstruosas nem mulheres insinuantes.
No caminho de volta, pensando na agitação que seu sumiço deveria estar causando, o príncipe foi acolhido por uma chuva torrencial que empapava o tecido grosso de suas vestes, tornando-o pesado. Decidiu tirar a roupa clerical. Os rasgos na pele provocados pelas plantas espinhosas que abundavam na floresta agora percorriam todo o corpo semidesnudo. Sabia que, no fim do dia, teria de subir na torre mais alta do castelo, sob a ovação dos súditos, sob os olhares do rei, da rainha e de toda a família, domar o bicho e usar em prática o conhecimento adquirido nos cinco anos anteriores.
Mas não.
Isso ele não se sujeitaria.
Ele buscaria a amada. Daria a volta na ilha. Pelo litoral era tarefa impossível por conta das falésias escarpadas. A única trilha, rudimentar, era protegida por guardas. Cortar caminho pela floresta se mostrou tarefa hercúlea.
Mas se em cinco anos aprendeu com o mestre a teoria sobre como rasgar os céus dando ordens a uma fera bestial, é bem certo que levou o mesmo tempo para dominar o conhecimento marítimo, indo de soslaio, se esfregando pelas robustas paredes de pedra talhada, na labiríntica biblioteca palaciana.
E essa seria sua profecia, por ele escrita. Navegar por baixo, e não por cima.
Ao chegar à cidade, esbaforido, com pés e tez sangrando, rumou para sua parte mais antiga, que há centenas de anos não era habitada. Ali repousava, esquecido das loas nacionais, o mastodôntico barco que primeiro aportara na ilha. A única embarcação, trazendo rei, rainha, povo, clero, animais e espécies vegetais. Dentro dele, o pioneiro bote de madeira, aquele que encalhou na praia e serviu de apoio para a pegada inaugural na areia.
O príncipe arrastou a diminuta nave até a água, território reservado a poucos e destemidos pescadores, que se afastavam alguns metros e voltavam afobados. O liso casco de madeira dançou de forma cadenciada e convidativa. O herdeiro ao trono entrou nele e pegou firmemente os dois remos que repousavam ali. Após se deslocar algumas dezenas de metros em território virgem, reparou no alvoroço que tomava conta da cidade, por conta de seu desaparecimento e da profecia que derramaria a aniquilação sobre todos. A apreensão de ser pego foi substituída pelo ar feliz que saía de seus pulmões imberbes ainda cheios de energia.
Estava livre.
E mais livre ia ficando à medida que se afastava da terra, que aos poucos ia sumindo, levando consigo os rumores. A chuva parou, mas o céu continuava cinzento.
O príncipe remou até que começou a parar de ouvir, por completo, os gritos que vinham da ilha. No lugar deles, escutava docemente pela primeira vez o mar que lambia as tábuas centenárias e carcomidas por cupins, que por sua vez respondiam gentilmente deixando a água negra entrar.
Nadar não sabia. Voltar era já impossível. O príncipe lançou ao horizonte o olhar de quem aceita. Com movimentos delicados, porém decididos, deitou-se e sentiu o sal líquido coçar sua pele e sua língua pela primeira vez. Nenhuma lágrima salgada foi vertida, pois tristeza por fim tão doce não havia. E deitando viu lampejos dos bichos emplumados voando à sua procura, mas que não conseguiam vê-lo do alto por conta da neblina que envolvia o mar.
Uma delicada mortalha para o príncipe.
O único manto que ele poderia desejar.