Daqui não saio: há quem só se levante do assento na hora de desembarcar
Uma coisa que aprendi nesses quase dez anos escrevendo sobre medo de voar (e conversando, em entrevistas ou troca de mensagens, com pessoas que também sofrem desse mal) é que algumas coisas podem até nos unir (frio na barriga, coração acelerado etc.), mas em outras ocasiões somos bem diferentes um do outro, e isso é fascinante. Um tempo atrás, fui apresentado, por meio de uma leitora, ao universo das pessoas que não se sentem nem um pouco à vontade de se levantar do assento durante o voo, coisa que para mim é normalíssimo e até mesmo agradável. Para essa matéria, conversei com duas panicadas que se encaixam no perfil.
No caso da psicóloga clínica amazonense Daniela Freire, esse estilo "sentei e só me levanto quando pousar" foi algo desenvolvido ao longo dos anos — o medo de voar se iniciou devido a uma turbulência que pegou em um voo de volta de São Paulo para Manaus, em 2017. Antes disso, ela voava sem problemas, inclusive naquele mesmo ano havia feito uma viagem pela Europa com direito a um longo voo de 11 horas de São Paulo para Milão, na Itália.
Já essa vontade de sentar no embarque e só sair do lugar quando for a hora de descer do avião sempre foi a praia da vendedora catarinense Juliana Carvalho, mesmo antes de desenvolver a aerofobia. Ela não se sente confortável dentro de aeronaves, fica ansiosa e a única coisa que deseja nesses momentos é que o pouso chegue logo. “(Por isso) acabo preferindo ficar assistindo a um vídeo, me distraindo bem quietinha no meu assento. Eu gosto de ver séries, alguma que eu esteja bem animada em terminar (a tendência é me prender mais). Gosto de fazer lista de planos também, sou a louca das listas e isso me acalma, e gosto de joguinhos, mas (manter) 100% de atenção eu não consigo, sempre dou uma olhada em quanto tempo falta (para o fim da viagem)”, revela Juliana.
Daniela no Museu do Louvre, em Paris, durante viagem em 2017. E na foto da direita, ela com o noivo em um voo para Florianópolis (SC) em maio deste ano — nesta viagem Daniela foi pedida em casamento
Assistir a vídeos enquanto está a 40 mil pés de altura também é uma estratégia da psicóloga amazonense. E ela vai além. Antes de viajar, ela se prepara emocionalmente para o voo e tenta deixá-lo o menos desconfortável possível. Baixa séries e filmes que tragam uma sensação de conforto, leva roupas a mais, caso faça frio no avião, deixa os fones de ouvido sempre carregados, usa travesseiros de pescoço e até óleo de lavanda para dar um cheirinho “de casa”. “Muitos rituais. Então levantar do meu assento e sair significa estar exposta, não estou mais protegida, no ninho em que criei para mim. E ainda tenho a sensação, obviamente irracional, de que se eu levantar e andar no avião causarei algum desequilíbrio ou pelo menos sentirei isso e penso que vou ter uma crise. E como uma panicada, o que mais evito antes e durante um voo é ter uma crise de ansiedade”, afirma a psicóloga, que costuma sempre ficar na janela.
A preferência pelo “assento com vista” não é a mesma de Juliana. “Eu prefiro sentar no corredor, tenho a sensação que não estou no avião, sei lá o motivo. Quando eu sento na janela eu prefiro ir com ela fechada, abro raríssimas vezes, às vezes tiro uma foto e fecho novamente. Já no corredor eu não me importo, exceto em voos mais longos, pois se a pessoa da janela quiser ir ao banheiro eu terei que levantar”, conta. Só de pensar nisso já deixa a passageira com as pernas bambas. Ela nunca foi ao sanitário no avião. Todas as vezes em que precisou abandonar momentaneamente a poltrona foi para dar passagem a alguém — e voltou pro lugar o mais rápido possível.
Foto feita por Juliana em um voo entre Florianópolis (SC) e Natal (RN) em junho de 2024 — ela abre a janela raríssimas vezes, para rápidos cliques
Algumas vezes, Juliana já sentiu vontade de ir ao toalete do avião, mas preferiu esperar pelo pouso e buscar alívio quando estivesse em solo, no aeroporto. “Mas eu acho que era mais por nervosismo do que vontade mesmo. Eu simplesmente não levanto a não ser uma extrema necessidade. Em breve, vou viajar com meu esposo e filhos, se um deles precisar ir ao banheiro, com toda certeza o meu esposo que vai levar”, diz, entre risadas. E ver gente andando pelo corredor? Será que é gatilho emocional para ela? “Tem pessoas que não sossegam nos assentos, né? Mas honestamente eu me sinto um pouco mais tranquila quando vejo as pessoas andando, tenho a sensação de que está tudo bem no voo”.
Amo minha profissão, pois sempre sou apresentada a aspectos novos e interessantíssimos da mente humana. Todos normais, claro. Afinal, se de perto (e em pé ou sentado) ninguém bate muito bem do juízo, então ter suas manias está mais que perdoado. Juliana e Daniela, mesmo com suas peculiaridades, contam com suas próprias estratégias para encarar os voos e conseguem viajar. Vencem seus medos como podem e seguem a vida.