Viajar é bom, mas voltar para casa também é

Escolher o destino. Planejar a viagem. Fazer as contas de quanto precisar gastar para ver se é viável ou não. Comprar as passagens, hospedagens, passeios. Tudo isso cansa, mas também pode ser proveitoso. Ir sonhando com os destinos, pesquisando sobre as cidades a serem visitadas, recebendo dicas de amigos e sites especializados. Eu, pelo menos, acho uma delícia. Depois, a viagem em si. Aquela adrenalina de se jogar no novo, mesmo o que seja um destino já conhecido ou divulgado de forma massiva pelos meios de comunicação tradicionais ou pelos influenciadores nas redes sociais.  Ver lugares e culturas diferentes é, como costumam dizer, uma forma de expandir nossos próprios mundos. Descobrir até mesmo mais coisas sobre quem somos. Além da curtição, pois dá para unir as duas coisas de forma harmoniosa. Viajar é bom demais.

 
 

Mas viajar cansa. E quanto mais extenso e cheio é o itinerário, “pior” fica. Vamos nos sentindo cansados enquanto os dias (e às vezes a paciência) vão passando. Levar na mala ou na mochila coisas que nos remetam à nossa casa ajuda: livros, fotografias, incensos. Uma peça de roupa com o cheiro da pessoa amada (quem está vendo o BBB sabe). Nos auxiliam a matar a saudade daquilo ou de quem ficou para trás, mesmo que momentaneamente. A rotina às vezes é vista como algo ruim, mas não é bem assim. Pode ser aquilo que gruda nossos pés no chão, o que nos dá alicerce para encarar o dia a dia puxado, nos dá estabilidade emocional — na quantidade que for possível, o que nem sempre é muito. Então, ficar em casa é muito bom também.

Lógico que essa saudade do lar não se inicia logo nos primeiros dias fora de nossa cidade. Tem uma influencer que eu amo e que brinca a respeito daquelas pessoas que mal saem do Brasil e já ficam sentindo falta do feijão com arroz na mesa. Pode até ter gente assim, mas meus sintomas de que “acho que está na hora de voltar” costumam aparecer mais adiante, lá pelo fim da viagem. Até chegar esse ponto, tudo o que eu quero é fazer e ver e provar o que está distante do meu cotidiano. Prato bem agridoce? Venha! Bebida alcoólica antes do almoço, “a troco” de nada, só para andar e celebrar com amigos? Venha! Se encher de doce no café da manhã? Venha! Reencontrar parentes e amigos que não vejo há anos e passar horas e horas botando o assunto em dia? Venha demais!

Mas dormir e acordar em uma cama diferente da nossa pode também criar um sentimento de falta, ainda mais se o cronograma é daqueles que incluem um número grande de cidades a serem visitadas. Sim, dá para criar uma rotina mínima em um Airbnb ou hotel ou onde quer que você esteja hospedado. Eu gosto muito de fazer “meu cantinho” na cabeceira, onde coloco meu tapa-olho, meu livro, minha melatonina para dormir, meu tapão de ouvido. Se eu for dormir no sofá-cama de alguém e não tiver a mesinha, tudo bem, boto no chão mesmo. Mas ter aquelas coisas que tanto necessito antes de dormir, ao alcance das mãos, é fundamental para mim. Rotina nem sempre é sinal de coisa sem graça. Pode ser algo mínimo, mas que faz com que nosso cérebro não se sinta tão desordenado. E rotina em viagem pode ser isso, ter sempre um guarda-roupas para pendurar as coisas e não deixar tudo embolado na mala. Ou uma cozinha e uma mesa para fazer as principais refeições do dia. Para mim, é o tal cantinho perto de onde eu for dormir.

 
 

Quantas vezes a gente já falou ou já ouviu, no dia de fazer a viagem de volta, a famosa frase: “ah, saudade de minha casa”. Pois é verdade. E às vezes a viagem dura poucos dias, mas que já são suficientes para desenvolver uma nostalgia pelo que já é conhecido, pelos sons que chegam pontualmente da rua, como o caminhão da coleta de lixo, o vendedor de picolé, as crianças chegando da escola. Eu, na verdade, odeio todo tipo de som, então não sinto falta disso quando viajo. Quando estou em um lugar silencioso, estou em paz — não é à toa que estou escrevendo esta matéria em um domingo, dia mais tranquilo em relação aos barulhos que invadem a janela (não há como romantizar buzinas e carros acelerando quando se mora em um andar baixo e em uma rua bem movimentada). Além disso, meu marido agora está dormindo. A paz.

Viajar abre a mente — clichê, sim, porém bem real. Ver algo novo, provar algo novo, uma comida, uma sobremesa. Uma balada animada. Ou conhecer gente nova da qual você se tornará melhor amiga por algumas horas, para depois se despedir e fazer juras de encontros futuros mesmo sabendo que nunca mais vai encontrá-la na vida — já amei, hoje odeio isso. Visitar um museu interessante — já amei, hoje odeio (meu Deus, estou virando um velho chato). Vou focar então em coisas que eu realmente gosto em viagens: beber em qualquer hora do dia ou da noite, comer coisas gostosas (não necessariamente novidades, pode ser um bife com fritas bem bom, mas com um tempero que até então minhas papilas gustativas desconheciam), andar sem rumo e descobrir um cantinho lindo, ir em festa de drag queens locais, sentar em um café e ver o vai e vem das pessoas que ali habitam, visitar um sítio arqueológico. Comprar o jornal na banca de revistas (caso a língua seja minimamente conhecida, pois não vou gastar dinheiro para “ler as figuras”). Ir em pequenas exposições de arte (acho que o que me cansa em museu é a grandiosidade dos principais centros culturais, que chegam a exigir quase metade do dia para uma visita mínima). Me deslocar de trem. Nada como o sabor de não precisar usar o avião.

 
 

Mas viajar também pode ser física e mentalmente cansativo. O vai e vem entre aeroportos, estações de trem e rodoviárias e as hospedagens. Lidar com temperaturas muito diferentes da que você está acostumado. Muitas vezes dormir mal, pois o colchão não é mesmo de sua casa, nem o travesseiro, nem a coberta, nem a cortina. Alimentar-se fora dos horários também pode trazer uma confusão ao corpo. Eu mesmo sempre gripo em algum momento da viagem, acho que justamente por desordenar esse tal do relógio biológico.

Acho que entra em jogo também a idade nesse jogo. Quando eu era mais novo, amava viajar a trabalho, mesmo que o tempo livre fosse pouco, suficiente para um almoço ou um lanche com algum amigo que morasse na cidade de destino. Quando o trabalho era próximo de um feriado ou então de um fim de semana e eu conseguia convencer meu chefe a me deixar emendar, então, era a glória. Um ou dois dias inteirinhos dedicados a percorrer o lugar de cima a baixo. Hoje, se eu ainda estivesse nessa empresa, tudo que eu mais gostaria de fazer seria antecipar a volta, para estar mais tempo com meu marido — sim, amo quando ele dorme, mas amo mais ainda quando ele está comigo, acordado.

Uma coisa que eu jamais conseguiria fazer seria ser nômade digital. Conhecem? São as pessoas sem endereço físico, que trabalham para si ou de home office e assim podem escolher qualquer cidade do mundo para chamar de lar, e muitas vezes elas mudam à medida que a pessoa vai enjoando de olhar para a mesma paisagem. Também creio que teria zero habilidade para ser “viajante profissionalmente”, quem recebe para botar a mochila nas costas ou puxar a mala por aí para produzir conteúdo, seja escrito ou audiovisual. Pois bem, acho que não conseguiria, e olha que amo viajar e depois escrever sobre o assunto. “Pôr o pé na estrada” é ótimo, um sonho, mas viajar o tempo todo seria, para mim, o maior pesadelo. Voltar para casa, pisar o mesmo assoalho, sentar à mesma mesa, lavar os mesmos pratos, me dá estabilidade. Pelo menos por enquanto. Pode ser que no futuro eu volte a mudar. E seja melhor amigo da minha mochila.

Basta ter o cantinho do lado da cama. Dele, não abro mão. É como ter minha casa mesmo estando fora dela.

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