Viajei: SOCORRO — Campinas-SP nº① 2023: Voo de ida

E eis que fui surpreendido com uma viagem de última hora. Bem, não foi tanto assim. Mas para um panicado que gosta de ir se preparando mentalmente para a viagem, uma semana de antecedência é pouco (vixe, lembrei agora de missa de sétimo dia, credo). Mas, contrariando as expectativas, sabe que o medo até ficou menor? Não sei, acho que foi a correria de ajeitar tudo a tempo, antecipar as coisas, parece que nem deu tempo de pensar no pânico de voar. 

 
 

Fui então comprar a passagem. Já esperava que seria um tiro de cara, por ser assim em cima da hora. O bom de ir achando que vai gastar um rim e os dois olhos é se surpreender. Até que o preço não estava tão alto assim. Bem, continuava cara, mas não caríssima como tinha em mente. Mas é uma viagem que devo fazer, e que me trará enorme felicidade pois envolve estar com uma irmã que mora em Campinas, e estar em família, com a família na qual nasci e que, sobretudo, escolhi para estar ao meu lado, isso não dá para contabilizar em dinheiro. 

Estranhamente começo a fazer a mala dias antes. Geralmente vou anotando ao longo dos dias no celular tudo que preciso levar e, na véspera, arrumo tudo. Mas desta vez foi diferente. Se bem que devo confessar que o impulso inicial de abrir a mala em cima da cama de hóspedes foi meu, mas depois quem assumiu o controle foi meu marido. Ele é super organizado, tem um sistema todo próprio e interessante de organização, compartimentando tudo de forma lógica. Um dia preciso gravar um vídeo mostrando, é genial. Gratidão eterna a Rafa, pois odeio fazer essa tarefa crucial para uma viagem. 

Mas voltando à tensão pré-voo. Eu disse lá em cima que foi tranquilo? Retiro tudo que disse. Tive de fazer uma colonoscopia e fiquei dez dias sem tomar um remédio para depressão. Eu parecia outra pessoa, ora apático, ora irritadiço. Pensando bem, acho que os dias que antecederam este voo para Campinas foram os piores dentre os períodos antes de uma viagem aérea. Tá vendo como somos contraditórios?

Véspera do voo sou tomado por outros problemas, então nem penso muito no pavor de avião. Na verdade, nem lembro o que era, só sei que coisas ruins aconteceram pois tenho o costume de anotar tudo para depois escrever a matéria. Esse é o lado positivo de ter memória curta.

Chega o dia da viagem. Que começou já nas primeiras horas. Mais precisamente às 1h52. Acordo no escuro sem sono algum, mas com toda a fome do mundo. Sinal de ansiedade? Sim ou com certeza. Com sorte, volto a dormir. De manhã, já (mais ou menos) acordado, tudo vira possíveis sinais. Ligo por chamada de vídeo para a minha mãe. Será uma despedida de “até logo” ou “até nunca mais”. Melhor não comentar para não assustar minha progenitora. Será este meu último almoço? Meus últimos momentos com a pessoa que mais amo?

Penso em ir de metrô. Mas como costumo tomar o santo remedinho antes de sair de casa, meu medo é dormir e só acordar do outro lado da cidade. Melhor ser acompanhado por meu marido até lá. No caminho sinto o remédio “bater”. Gravo stories completamente aleatórios para o instagram do rivotravel. Minha fala está arrastada e eu tenho plena consciência disso. Tento me controlar. Só piora. Entrego a Deus.

Rafa me deixa no aeroporto. Saio do carro. Olho para o banco, agora vazio, e por um segundo penso em entrar de volta e dizer “toca para casa, motorista”. Mas decido seguir em frente. Me despeço de Rafa de modo apaixonado. Será a despedida derradeira? Ando grogue para entrar no sagão. Ainda na calçada, ouço um menino acompanhado da família gritando: “eu vou ver o fogo na asa do avião”. É o que, coisinho? Você não vai ver é nada. Finjo não ter ouvido, apesar de ele ter repetido mais uma vez. 

Segunda vez que vejo o aeroporto de Salvador reformado. Chiquetoso. Ares de aeroporto “das gringa”. Um pouco cafona? Talvez. Essa coisa de seguir os modelos. Mas há toques regionais. E o ar-condicionado funciona que é uma beleza. Ponto positivo. 

Na hora do embarque, aquela confusão, aquele auê. Ninguém espera ter seu grupo de embarque ser chamado. Aí aglomera. Isso passa uma sensação de agonia, e para um panicado isso não é nada bom. O corredor que liga ao avião está lotado. Ninguém se move. Não sei o que é pior: entrar no avião ou a espera para adentrá-lo. Chega minha hora (de embarcar!). Entro com o pé direito, claro.

Vai decolar. Estou grogue, mas não groguíssimo como gostaria. Mas mais grogue que o voo Campinas–Salvador mês passado. Um alento?

Avião decolou. Incrível como nessa hora eu já começo a ficar mais calmo, como se o perigo já tivesse passado. Felicidade mesmo só quando chega a altitude de cruzeiro. Fico com o olhar vidrado na telinha, vendo a altura aumentando. Meta? Doze mil metros. 

E está comprovado: voar na primeira fileira é muito melhor, pelo menos na minha opinião. Diminui a ansiedade. Tenho 1,86m de altura. Fica preso naquelas fileiras normais deixa qualquer um mais tenso. Esticar as pernas relaxa. Mas não resolve, claro. Turbulência? Sim, assusta. E teve. Mas nada muito assustador. 

 
 

Vou no banheiro dos fundos (uma passageira tava passando mal e ficou plantada no sanitário da frente, coitada). O banheiro dos fundos do Airbus a320neo da Azul é o menor do mundo! Quase entalei. Eu (e muitos panicados) gostamos de ir ao banheiro para dar uma acalmada, sentir aquele aconchego, aquele apertinho, quase um ninho, um útero de mãe. Mas esse, pelo amor de Jah, é um útero com quíntuplos dentro. 

Momento tenso de quem se senta em cima do trem de pouso acontece pouco depois da decolagem e antes do pouso. O barulho da movimentação para o recolhimento ou acionamento das `rodas” eu acho meio assustador. E quem tá na primeira fileira também consegue ouvir claramente o alarme de baixa altitude que toca quando o avião está próximo do solo. E quem é louco por programa de desastres aéreo certamente reconhece esse sinal sonoro. De arrepiar.

Mas deu tudo certo. Analisando friamente, coisa que panicado não consegue fazer bem, o voo foi ótimo. Precisava sofrer tanto? Não precisava. Mas quem diz que sempre conseguimos mandar em nossas emoções e temores? Aliás, alguma vez conseguimos?


E como tudo que vai, volta, em breve haverá postagem sobre o voo de retorno para Salvador. Quer saber mais? Fiz alguns videos desta viagem e coloquei lá no Instagram do rivotravel — vão lá ver!

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