Você aguentaria passar quase um dia inteiro em um único voo?

Volta e meia o assunto vem à tona: um voo direto entre Brasil e Austrália, láááá do outro lado do mundo. Essa semana, foi noticiado que o presidente da Embratur, Gilson Machado Neto, e o embaixador da Austrália no Brasil, Timothy Kane, tiveram, em Brasília, uma conversa sobre um possível voo da empresa aérea australiana Qantas entre Melbourne e São Paulo. A ideia seria impulsionar as viagens de negócios e lazer. Vale ressaltar que, desde junho, cidadãs e cidadãos da Austrália, bem como de alguns outros países, não precisam mais de visto para entrar em território brasileiro — a recíproca não é verdadeira. Atualmente, quem sai do Brasil e quer ir para a Austrália geralmente faz conexão em Santiago (Chile), alongando a jornada em consideráveis horas. Mas a verdade é que a tal conversa em Brasília ainda é bem inicial. Há questões práticas, como a falta de um equipamento que tenha autonomia de voo para realizar o longo trajeto e as leis trabalhistas brasileiras que impedem que a tripulação passe tanto tempo trabalhando. Mandei e-mail na quinta-feira para a Embratur, para a Embaixada da Austrália no Brasil e para a Qantas, levantando questões sobre o tal voo, e não obtive retorno.

 
A rota do avião está uma bagunça na foto, mas tudo leva a crer que sobrevoará o oceano Pacífico em uma linha mais reta

A rota do avião está uma bagunça na foto, mas tudo leva a crer que sobrevoará o oceano Pacífico em uma linha mais reta

 

Mas ler sobre esse suposto voo Melbourne — São Paulo já foi suficiente para me deixar aflito. Já pensou a tortura que deve ser para uma panicada ou panicado ter de sofrer esse tempo todo trancado em um tubo metálico, sem a opção de dizer “seu moço, dá uma paradinha aí no meio de uma ilhota do Pacífico Sul que eu quero descer”? Pois saibam que existem situações piores. Para começar temos a rota Newark (um dos aeroportos que servem Nova York, nos EUA) para Singapura. São 15.344 quilômetros, ou inacreditáveis 18h25 no ar. Pelo menos quem serve o trajeto é a maravilhosa Singapore Airlines, em um de seus modestíssimos Airbus A350-900. A segunda colocação no ranking de voos mais longos do mundo vai para a Qatar Airways, que com seu Boeing 777-200 LR vai de Auckland (Nova Zelândia) para Doha (Catar) em 18h20 — sim, perdeu o primeiro lugar por míseros cinco minutos; não dá nem tempo de pedir um refrigerante para a comissária de bordo. A medalha de bronze é empate, com o tempo de 17h20. Dividem os louros a já citada Qantas (de Perth, na Austrália, para Londres, na Inglaterra, usando o Boeing 787-9 Dreamliner) e a Emirates (de Auckland para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, usando o Airbus A380).

 
A Singapore Airlines, que opera a rota mais longa atualmente, é uma das melhores companhias aéreas do mundo — já escrevemos sobre este ranking  aqui

A Singapore Airlines, que opera a rota mais longa atualmente, é uma das melhores companhias aéreas do mundo — já escrevemos sobre este ranking aqui

 

Uma leitora ou leitor mais atento pode reparar que todos esses voos são feitos com modernos aparelhos. Cadê a Rainha dos Céus (o belo 747), que apesar de ter versões mais atuais, como o 747-8, não deixa de ser um projeto defasado, do fim dos anos 1960. Modelos mais atuais, como o Airbus A350-900 ou mesmo o Boeing 787-9 Dreamliner, por serem mais modernos, permitem alcançar distâncias maiores, com mais conforto aos passageiros. As companhias aéreas anunciam que esses aviões apresentam melhorias nos sistemas de pressurização e a qualidade do ar dentro da cabine, sobretudo em relação à umidade, o que diminuem o jetlag (aquela horrível sensação sentida após longos voos, com grande diferença de fuso horário).

Mas convenhamos: 18h25 voando (para citar o caso da Singapore) é osso duro de roer. Na classe econômica, então… O que fazer nesse tempo todo? Acho que deve ser difícil até mesmo para passageiros e passageiras sem medo de voar. Dormir direito naquilo que as companhias chamam de “poltronas” (poltrona é o que eu tenho aqui em casa, onde me refastelo todo) é meio dureza. Se bem que tem gente que consegue, né? E fora que uma hora deve encher o saco de ver filme na tevezinha, por mais que as empresas se esforcem em manter um catálogo vasto e com lançamentos. O que daria para fazer? Organizar com a galera brincadeiras de pega-pega? Cabra-cega? Ensaiar um coral? Aulões de alongamento? Mas falando sério, passar o tempo para um panicado é questão vital — já fiz até uma matéria sobre isso no rivotravel, cliquem aqui para conferir.

 
Dormir — sem pânico — em uma verdadeira cama dentro do avião: um sonho? A foto contém ironia! E ilustra uma matéria já feita  aqui  no rivotravel

Dormir — sem pânico — em uma verdadeira cama dentro do avião: um sonho? A foto contém ironia! E ilustra uma matéria já feita aqui no rivotravel

 

Para visitar familiares, já peguei muitos voos no trecho Rio de Janeiro — Roma, que dura umas 11h ou 12h, a depender dos ventos (sim, eles influenciam na duração). Quando era pequeno, eu, esfomeado, me esbaldava nos mimos e na Nutella que minha mãe levava na bagagem de mão. Mas quando a gente é criança pequena o desconforto nem conta, né? O assento parece ser uma cama king-size. Já adulto, fiz esse trajeto algumas vezes, e, como diz meu marido, “apenas queria estar morta”. Ai, credo, morrer e avião no mesmo parágrafo? Sai pra lá!

Mas já vou aqui, divagando na madrugada.

Voltando à Qantas (gente, esse texto deu mais voltas que o globo terrestre ao redor do Sol. Algum terraplanista entre nós?). A empresa “desafiou” as duas maiores empresas da indústria aeronáutica (a Airbus e a Boeing) a desenvolver aparelhos que voem mais de 20h sem escalas — e aqui, finalmente, explico o título desta matéria. Meu Deus, quase um dia inteiro confinado em um avião, meu coração panicado chega palpitou de aflição agora). A Qantas quer, até 2023, voar da costa leste do país, região onde estão localizadas grandes cidades, como Sydney e Brisbane, para destinos como Londres, Paris, Nova York e Rio de Janeiro. Ou seja, a ideia do voo entre Melbourne e São Paulo, sem escala, sobre o qual foi conversado em Brasília, por enquanto é só isso: uma ideia.

Vale lembrar que no ano passado a Qantas começou a voar sem escalas de Perth, na costa oeste da Austrália, para Londres, usando o Boeing 787. Mas a Qantas quer ir mais alto — e mais longe, sem paradas. A companhia deu para o plano o simpático nome de Project Sunrise (projeto Nascer do Sol, em português). Tem até um vídeo fofo sobre isso; veja abaixo. A inspiração vem dos voos do passado, quando para voar da Inglaterra (da qual a Austrália é antiga colônia) até a ilha-continente eram necessários vários dias e inúmeras escalas, e os passageiros e passageiras eram brindadas por mais de um nascer do sol ao longo da enorme jornada. Era a chamada Rota Canguru, pois ia pulando de cidade em cidade. O serviço começou em 1935 e para ir de Londres a Brisbane eram necessários inacreditáveis 12 dias e meio (adoro o “meio”, como se fizesse grande diferença) e incluir até um trecho de trem, entre Paris e Brindisi (eita, é a cidade de minha família, na Itália!). Olha a imagem do pinga-pinga no mapa feito pelo jornal inglês The Telegraph.

 
 
 
20190629-rivotravel-aviacao-voos-longos-rota-canguru-australia-medo-voar
 

Olhando por essa perspectiva, até que 20h dentro de um avião não parecem tão ruins…