Dormir — sem pânico — em uma verdadeira cama dentro do avião: um sonho?

Para muitas e muitos panicados, as horas não passam dentro de um avião. As mais sortudas e sortudos, rezam as lendas, conseguem tirar um cochilo (há quem jure cair em sono profundo. Comigo só na base do calmante). Se a pessoa viaja na primeira classe ou na executiva, até dá para compreender. Hoje, muitas empresas já oferecem opções de poltronas que reclinam 180 graus em ambas as classes, deixando o assento totalmente na horizontal. Não sei vocês, mas acho que nem assim eu conseguiria relaxar de verdade, tamanha minha aflição a bordo. 

 
 É possível relaxar de verdade ao dormir em um avião? Às vezes me sinto tão seguro quanto na imagem acima (contém ironia)

É possível relaxar de verdade ao dormir em um avião? Às vezes me sinto tão seguro quanto na imagem acima (contém ironia)

 

Como a maioria dos mortais, viajo sempre de econômica mesmo. E é para esse público que a fabricante Airbus (em parceira com a empresa Zodiac Aerospace) acaba de lançar uma ideia que, se sair das pranchetas, parece animadora: a transformação de parte da área inferior dos aviões (o famoso porão) em um espaço útil para os passageiros, com direito a locais reservados para trabalho, para crianças, para sociabilização (bares…oba, drinks!) e para atendimentos médicos (gente em pânico configura emergência, não?). Mas o melhor dessa novidade toda: os aviões seriam equipados com verdadeiras camas! Vale lembrar que, ao contrário do que algumas pessoas pensam, os porões das aeronaves são pressurizados, assim como as cabines.

 

Video do deck inferior do Airbus. (Fonte: Zodiac Aerospace — Youtube Channel)

 

A imagem de divulgação liberada à imprensa pela Airbus mostra um espaço clean, minimalista, com uso de cores neutras. E nem parece tão apertado assim. Me fez lembrar quartos coletivos de albergues, cheios de beliches. Na foto não dá para ter certeza se cada compartimento poderá ser fechado, para dar mais privacidade — passa a impressão de não haver portas, talvez por motivos de segurança. Ou também para inibir as passageiras e passageiros com certa dose de fogo no rabo. 

Taí. Acho que em uma cama dessas eu até conseguiria relaxar. Ou não. Ai, só de me imaginar nela me veio uma leve claustrofobia. Ok, o modelo proposto está longe do tipo de hotel-cápsula comum no Japão. Mas, mesmo assim… Dá um pouco de aflição.

 Será que existe criança panicada? Assim elas poderiam relaxar se divertindo nesse módulo à esquerda. O da direita é para atendimento médico... com médicos a bordo? (Fonte:  Airbus )

Será que existe criança panicada? Assim elas poderiam relaxar se divertindo nesse módulo à esquerda. O da direita é para atendimento médico... com médicos a bordo? (Fonte: Airbus)

 Vocês certamente me encontrariam nesse lounge à esquerda tomando drinks. O módulo da direita é pra quem consegue trabalhar em pleno voo: uma sala de reunião  (Fonte:  Airbus )

Vocês certamente me encontrariam nesse lounge à esquerda tomando drinks. O módulo da direita é pra quem consegue trabalhar em pleno voo: uma sala de reunião  (Fonte: Airbus)

Mas, Salvatore, quando poderei viajar belamente em uma cama? Calma, muita calma nessa hora. Isso tudo acaba de ser anunciado, então por enquanto não há muitos detalhes ou mesmo a confirmação de que isso vá mesmo se concretizar. A expectativa, caso a proposta vingue, é começar o desenvolvimento da ideia só em 2020. O projeto prevê que os espaços sejam compostos por módulos, para não precisar fazer grandes mudanças estruturais nos aviões e que possam ser usados de acordo com as necessidades de cada empresa e de cada voo.

Levanto algumas dúvidas. A principal é: qual seria o custo disso? O acesso seria pago, como adiantou o jornal inglês The Telegraph. É bom lembrar que toda a parte de desenvolvimento e execução de uma ideia, em uma indústria tão sofisticada e cara como a aeronáutica, significa massivos investimentos. O avião, com os módulos, perderia parte de seu porão de cargas — e carga configura uma parte dos lucros de uma empresa. Sendo assim, a companhia teria de compensar de alguma outra forma (cobrando do passageiro que deseja usufruir da comodidade, é claro). Se o bilhete que dá acesso ao subsolo custar muito caro, não valeria mais a pena comprar logo uma executiva — e assim garantir algumas benesses, como refeições e bebidas mais requintadas, atendimento mais personalizado e milhas extras nos programas de pontos (além de, é claro, uma poltrona-cama)?

Não sei, não. Acho que, no fundo, ainda prefiro dormir em minha cama, em terra firme. Bem firme.