Aviões menores para viagens longas: solução ou pesadelo para os passageiros?

A recente entrada da companhia aérea espanhola Iberia no mercado de voos de corredor único entre Europa e Nordeste brasileiro, aliada aos planos anunciados pela LATAM, pode ser considerado um marco de uma nova fase na aviação comercial. A Iberia passou a operar rotas como Madri–Recife e Madri–Fortaleza com o Airbus A321XLR, aeronave de maior autonomia que permite voos transatlânticos diretos com menor custo operacional. Já a LATAM pretende incorporar esse modelo a partir de 2027, com foco em expandir ligações diretas entre o Nordeste e a Europa, sem depender dos grandes hubs (aeroportos que concentram voos) como Rio de Janeiro e São Paulo.

 
 

Avião com corredor único Vs. dois corredores

(O termo “avião de corredor único” é um pouco autoexplicativo, mas vale dizer: são aquelas aeronaves no esquema “três poltronas de cada lado com um corredor no meio”, usadas comumente pelas empresas em viagens dentro do Brasil — nem sempre foi assim, pois nos anos 1980 e 1990 era mais comum ver aviões maiores, com dois corredores, voando em rotas domésticas). Mas as aeronaves voltadas para voos internacionais geralmente são equipadas com telas de entretenimento individual e, em alguns casos, internet wifi.

Esse movimento de usar aviões menores em rotas transatlânticas tem origem em uma estratégia iniciada anos antes pela TAP Air Portugal, que desde 2019 utiliza o Airbus A321LR em rotas entre o Brasil e Lisboa. Com autonomia menor que a do XLR, mas ainda suficiente para cruzar o oceano que divide nosso país e o velho continente, o modelo permitiu abrir mercados considerados “de menor densidade”, conectando diretamente cidades nordestinas com menos passageiros por voo à Europa. Dessa forma, acaba reduzindo o tempo total de viagem dos viajantes, que precisariam de outra forma voar para um aeroporto maior já servido pelas companhias. A sigla LR, vale destacar, significa Long Range (alto alcance, em português). São versões com tecnologias diversas de seus “irmãos” mais velhos, como, por exemplo, um maior tanque de combustível, essencial para voos de 8h de duração ou mais. Aviões maiores têm maior autonomia de voo por, entre outros quesitos, conseguirem levar mais querosene de aviação para enfrentar longas jornadas aéreas.

 

Mapa de assentos do Airbus A321XLR (parte superior da imagem) e do Airbus A330 (inferior). As imagens não estão na mesma escala

 

A tendência é de expansão desse modelo nos próximos anos. Com aeronaves mais eficientes e maior autonomia de voo, companhias aéreas conseguem operar rotas antes inviáveis economicamente, ligando cidades secundárias dos dois lados do Atlântico. O resultado é uma malha aérea mais descentralizada, com voos diretos, maior conveniência para o passageiro e uma nova lógica de conectividade internacional baseada em aeronaves de corredor único.

Mas nem tudo são flores nessa equação. Segundo o canal especializado Relatos Aéreos, o número de banheiros na classe econômica nesses modelos, a depender da configuração que a companhia use, chega a um lavatório para cada 80 passageiros — tal relação chega a cair pela metade, ou seja, um para cada 40 pessoas transportadas, nas versões do Airbus que não são LR. Além disso, nos novos aviões de corredor único para longas distâncias, o tamanho de cada banheiro diminuiu. O Relatos Aéreos ressalta em um de seus vídeos sobre o assunto alguns relatos de pessoas que sentiram claustrofobia em viagens mais longas, uma vez que os aviões são menores. O vídeo também aponta a falta de espaço para circulação e para que a tripulação de bordo consiga fazer seu trabalho. A galley traseira (aquele espaço para a tripulação) precisou ser repensada, pois a tradicional configuração simplesmente não cabia nesse novo modelo.

 

Airbus A321XLR da companhia aérea espanhola Iberia

 

A classe executiva, na parte dianteira, também sofre. Comissários relatam que não há espaço suficiente nos fornos para manter as refeições aquecidas ou sequer para montar os pratos sem esbarrões. Os aviões de corredor único da Airbus também perderiam, segundo o canal especializado, na questão da qualidade do ar injetado a bordo por conta de mudanças no sistema de pressurização da cabine, o que significa maior desidratação e fadiga dos passageiros.

Outra conta fácil. Em um avião de um único corredor, apenas duas em cada seis poltronas têm acesso ao corredor, ou seja, 33% do total. Em um Airbus A330, muito usado pelas companhias estrangeiras em voos para o Brasil, essa proporção sobe para 50% dos assentos, o que gera mais conforto e mobilidade para os passageiros (nele a configuração é de duas poltronas do lado esquerdo, corredor, quatro poltronas centrais, corredor, duas poltronas do lado direito).

 

Interior do Airbus A321LR da TAP Air Portugal

 

O que os viajantes dizem

Conversei com alguns leitores e leitoras do rivotravel sobre o assunto, se já voaram em aviões menores em rotas mais longas ou se voariam em aeronaves assim.

Vamos começar pelo quesito “turbulência”, pois aviões menores, menos robustos, costumam sofrer mais com esse terror da maioria dos passageiros. “É sabido que aviões maiores são geralmente mais estáveis e sentem menos os efeitos das turbulências. Tem mais envergadura ajudando assim a lidar melhor com os solavancos. Apesar de saber que turbulência não derruba avião, (aprendi isso com o rivotravel) é o que sempre me assusta numa viagem aérea”, afirma a bióloga Flavina Souza e Silva. Quem parece concordar com ela é o publicitário Thiago Ferreira: “Não penso muito nas turbulências até elas acontecerem e aí acabo ficando com medo, sim. Mas até hoje só peguei turbulências bastante leves. E, com certeza, eu prefiro um avião maior e mais estável”, diz, atirando ainda que não se sentiria claustrofóbico porque não tem problemas com lugares fechados — “mas certamente o tempo longo de viagem me faria ficar muito mais irritado num avião "pequeno". Os aviões maiores com certeza trazem mais conforto”.

 

O publicitário Thiago Ferreira em viagem a Barcelona, na Espanha, em 2013

 

Quem também dá seu relato é a jornalista Júlia Ribeiro, que é brasileira, mas mora no Canadá, e já pegou vários voos longos (inclusive de Toronto ao Brasil) em aviões de corredor único. “Em voo entre Calgary e Toronto, o piloto avisou que pegaríamos turbulência na subida e mandou apertarmos os cintos. Naquele ponto em que o avião está mais inclinado, ele deu aquela queda maldita de dois segundos e todo mundo deu um gritinho. Além do gritinho, um cidadão na fileira de trás soltou um pum daqueles. Eu garanto que todo mundo naquele avião pensou ‘será que fui eu?’ nessa hora hahahaha. Todo mundo nervoso e meu sobrinho, pleno, assistindo ‘Como treinar seu dragão’, aproveitando o tempo de tela extra!”, conta.

E já que o assunto é filmes, desenhos e afins, Flavina tem uma opinião sobre isso. “Quanto aos entretenimentos, são importantes para promover um relaxamento, um suporte para quem está viajando sozinho, uma distração  para a nossa mente que adora mexer com o nosso emocional, principalmente para os panicados”, diz. Mas muita gente prefere não ficar refém do equipamento oferecido pelas companhias aéreas, que muitas vezes simplesmente não funcionam ou não são oferecidos. “Normalmente levo meu iPad com conteúdo já baixado ou uso o celular para ver algo. Prefiro um avião maior e sem tela se a escolha for essa”, afirma a cineasta Daniela Carvalho.

A bióloga viajante afirma saber da importância dos movimentos que propiciam bem-estar para o sistema circulatório em uma viagem tão longa e questiona se as companhias aéreas pensam nisso em relação ao aproveitamento do espaço, favorecendo esse cuidado. “Sou espaçosa, gosto de me sentir à vontade. Um avião “não tão grande” com mais de 180 pessoas à bordo, 8 horas de viagem, com certeza, iria acionar a minha tão temida claustrofobia e talvez com consequências desesperadoras”, diz.

Quem também se preocupa com a saúde a bordo é a professora Eliene Boente, que também prefere aviões maiores, “mesmo porque sou idosa e é bom para a circulação, evitando trombose”, citando um mal que requer atenção em voos longos e com mobilidade reduzida — a cineasta Daniela Carvalho, para viagens aéreas com muitas horas, procura ser precavida e só embarca usando um par de meias de compressão, para ajudar o sistema circulatório.

 

Avião da WestJet no qual a jornalista Julia Ribeiro voou entre Toronto (Canadá) e Dublin (Irlanda) em 2022. “Plena depois de oito horas sem dormir”, diz Julia, tomando uma merecida cerveja no destino

 

Sobre a questão dos banheiros, citada no início deste texto, Júlia é prova viva da dificuldade e desconforto. No voo de Toronto para a Cidade do Panamá, pagaram a mais por uma cadeira na fileira 7, já que nossa conexão no Panamá seria corrida e não queriam ter o risco de atraso no desembarque. Apesar de mais caros, os assentos na frente só tinham como vantagem a localização e uma tela para entretenimento. O espaço é bem reduzido e a aeronave só tinha banheiros na parte de trás (além do dianteiro, exclusivo para os dez passageiros da classe business), o que criou uma fila constante durante a maior parte do voo.

“Depois, no trecho entre Cidade do Panamá e Salvador, foi ainda pior: nossas cadeiras estavam na fileira 30 e o voo ficou com o sinal de cinto de segurança ligado pelas primeiras duas horas (turbulência leve, pelo menos!). Quando foi liberada, a passagem para o banheiro ficou sempre com fila. Não conseguimos dormir muito por conta do movimento, luzes e vozes, ou caminhar no corredor para esticar as pernas. A tripulação estava visivelmente cansada e estressada e ainda tinham que coordenar o serviço de refeição com o corredor sempre ocupado”, relembra.  

Olha, nunca fiz viagem longa em avião de um único corredor. Sei que há vantagens, como conectar cidades que não têm demanda para um avião maior, porém, no meu caso “panicado”, o conforto fala mais alto.