Que saudade dos aviões

Uma gota de suor desceu pela têmpora direita do rosto de Paulo no exato instante em que ele desceu do Uber, mas ele não se deu conta, pois estava mais preocupado em tirar a mala do carro antes que o motorista arrancasse para não passar dos cinco minutos autorizados sem cobrança de taxa. Como se chegar no teleporto não fosse estressante o suficiente, pensou. Arrastou a bagagem e o próprio corpo rumo ao saguão logo à frente, separado da calçada por uma enorme parede de vidro azul claro (“para transmitir paz, talvez?”) envolta em uma rígida, porém diáfana, estrutura metálica. Deu dois passos e recebeu a baforada de ar frio na cara, uma temperatura inconveniente mesmo para ele, inimigo do calor.

 
 

Pegou a fila para despacho de volumes. Em menos de cinco minutos, estava em frente à tela presa a um corpo de robô. “Quem pensou nisso certamente achou que estava abafando”, comentou com a mulher que estava no terminal ao lado. Ela não respondeu.

Após a leitura de íris, o QR Code scaneado, a foto do passaporte, a palma (suada) da mão registrada, a inserção dos dados pessoais e a obrigatória pesquisa de satisfação da experiência de se teletransportar (“dez para tudo, para não atrair azar”), Paulo foi liberado para prosseguir pelo corredor todo em mármore. A empresa operadora realmente não poupou dinheiro, pensou. Olhou para o celular, com as informações de onde ele partiria. Tubogate 18 by Peru Sadia. Passou pelo 16 Coca-Cola e pelo 17 Caixa Econômica Federal e logo chegou ao portão de embarque individual. Mostrou para o segundo robô com cara de tela o seu aparelho, outrora usado para falar com as pessoas. A porta de vidro, dessa vez translúcida, se abriu. “Boa tarde, senhor P.E.R, seus dados estão protegidos conosco. Paulo entrou no tubo, um espaço pouco menos que o box de um chuveiro, e nesse segundo a segunda gota desceu pela têmpora. Dessa vez ele percebeu. A porta se fechou. Paulo deu uma puxada de ar. A voz metálica surgiu de cima de sua cabeça: “Você aceita ser teletransportado para o teleporto de Pequim, na República Capitalista da China?”. Paulo olhou para as informações projetadas no vidro. “Aperte sim ou não”, dizia a dicotômica frase.

Nessa hora, a terceira, quarta e quinta gota desceram simultaneamente, como em um parque aquático em miniatura na lateral do rosto do telepassageiro, que apertou o “não” com tanta força que temeu ter deslocado o vidro do chuveiro-cápsula cilíndrica. Vários pensamentos rondavam sua cabeça. Será que a alma vai junto ao corpo? Justo ele, que nem acreditava tanto em alma ou coisas afins. Ele seria enviado inteiro ou em pedacinhos? E se tudo se embaralhasse como um grande quebra-cabeças e ele chegasse ao destino totalmente desconfigurado?

A porta se abriu e o robô, que já atendia o cliente seguinte, se virou para Paulo, todo solícito.

“Olá, em que posso ajudar?”.

“Falar com um humano”, disse, com a voz trêmula.

“Desculpa, não entendi, vamos tentar novamente…”.

“Falar com a merda de um ser humano!”, berrou.

Nessa hora, um funcionário da companhia aérea, a LAG (Latam Azul Gol Linhas Teletranspórticas, a única do país) parou o que estava fazendo (nada) e veio ver o que aquele cliente precisava.

“Olá, senhor, meu nome é protegido pelas leis de privacidade, em que posso ser útil?”. Tinha uma voz tão calorosa quanto uma enceradeira.

“Não consigo voar”.

“Desculpa, a LAG oferece a experiência de teletransporte”.

Paulo juntou forças internas hercúleas para não socar aquele homem e piorar tudo ainda mais.

“Ok, que seja. Tenho medo de teletransporte. Nunca usei um”.

“Senhor, é perfeitamente seguro”.

“Certo, essa é a resposta que você está programado para dar. Mas você viu aquele filme dos anos 1980 “A Mosca”? Nele, um cientista é teletransportado e entra uma mosca na cabine e ele sofre uma metamorfose nojenta. E se ficou um pedacinho do alface preso em meu dente da hora do almoço e eu chegar na China como um alface de barba e pernas?”.

“Não vi o filme “A Mosca”, senhor, eu nasci em 2030”.

Paulo pensou em que diabos essa geração toma para odiar tanto o passado.

“Dá para remarcar?”

“Vejo aqui que o senhor optou pela tarifa Gold Plus Master”.

“E isso quer dizer que posso remarcar para amanhã? Posso tentar uma sessão extra com minha psicóloga”.

“Infelizmente, apenas a tarifa Gold Plus Master Blaster Platinum permite remarcação. Seus dados, como peso, altura, densidade corporal, número de células e destino, já foram calibrados com sucesso pelo sistema e, se o senhor não entrar naquela cápsula em três minutos, perderá os 50 mil dólares brasileiros que o senhor investiu. Ajudo em algo mais?”.

Atordoado e pensando no prejuízo financeiro, Paulo voltou derrotado para a cabine. Respirou fundo mais uma vez e pressionou o botão “confirma”. Mas antes teve tempo de um último suspiro e pensou:

“Que saudade dos aviões”.

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