Carnaval de rua em Salvador! — como nunca fiz um pequeno guia de sobrevivência?
Em 2026, completo 30 anos de Carnaval de Salvador. É bem verdade que antes a festa era mais sossegada, com bem menos gente — beeeem menos turistas —, mas não vou ficar aqui sendo saudosista do tempo e do espaço na rua perdido. E, casando com a efeméride, já era hora do rivotravel oferecer um manual para quem quer se aventurar em 2027. Sim, pois as passagens aéreas agora, em cima da hora, devem estar bem mais caras que o normal, que já é bem salgado. Hospedagem para alugar aos 48 do segundo tempo? Melhor nem comentar. Mas se você caiu aqui, seja que ano for, está valendo!
Viajando para o carnaval de Salvador? Eis aqui um guia de sobrevivência para você
A sabedoria de três baianos experientes
Para compor esse breve painel sobre o Carnaval de rua de Salvador (que é bem diferente da experiência em um bloco com cordas, com acesso por meio da compra do abadá, ou então o de um camarote), conversei com três baianos apaixonados pelos dias de reinado de Momo — expressão horrível, tudo para não repetir as palavras muitas vezes. Cada um trouxe sua vivência de anos atrás do trio. Minha busca principal foi por dicas que cada um daria para quem está vindo pela primeira vez ao Carnaval da capital baiana. Sugestões não muito óbvias e que são encontradas em qualquer matéria sobre o tema, como usar roupas e tênis confortáveis, fazer refeições leves e manter a hidratação com bastante água. Outros pontos aqui destacados podem parecer batidos em um primeiro plano, mas ainda percebo que são erros cometidos por muitos, especialmente para os marinheiros de primeira viagem, então creio que são dignos de menção.
“Converse com pessoas da cidade que gostam e conhecem o Carnaval de Salvador para descobrir e entender que atrações são mais adequadas ao tipo de divertimento que você busca. Cada circuito, cada bloco tem sua dinâmica. Procure um que tenha a ver com seu estilo. E sinta-se em casa, mas lembre que não está”, opina o jornalista Pedro Fernandes. Ele tocou em um ponto fundamental: os visitantes são bem-vindos, mas é preciso chegar com calma, procurando saber e respeitar a cultura da cidade. E é claro que isso vale para qualquer lugar no mundo.
Rafael, eu, Diego e Thiago (ao fundo, meio borrado) no Carnaval de 2015. Amo o detalhe do isopor laranja levantado, puro suco do caos gostoso da festa baiana
Já o arquiteto Diego Serra ressalta que curtir Carnaval na pipoca é uma boa oportunidade para conhecer atrações menos televisionadas, artistas não tão conhecidos. Ele sugere sair um pouco do circuito mais batido, ressaltando que há algum tempo vem sendo oferecido um leque de possibilidades de festas — que já são consumidas por quem é daqui — mas que ainda são uma incógnita ao público de fora. “A movimentação no Centro Histórico, do Santo Antônio, os bloquinhos de rua do pré-carnaval, os ensaios que rolam antes da festa. São formas de conhecer (a folia) de um jeito mais plural, não temos só Ivete Sangalo”, diz.
Mas quer se jogar nos circuitos mais tradicionais (o do Barra-Ondina e o do Campo Grande)? Sem problemas. Em todo caso, é bom saber minimizar os riscos. Para poder brincar com menos tensão é bom evitar ficar perto da corda dos trios, que é “onde a confusão acontece com mais constância, um lugar de aperto e de passagem, de quem está indo e vindo. Aí aperta, costuma apertar, e o próprio bloco faz esse movimento de abertura (para os lados), estreitando esses corredores. São áreas tensas”, afirma Diego.
Erros comuns do folião
Outro ponto fundamental é ressaltado pela psicóloga Beatriz Aguiar: não sair de casa sem a doleira, aquela pochete fininha (vendida nas ruas) — e que, como bem observa Pedro — deve ir dentro da cueca ou da calcinha (ou do que você usar por baixo da bermuda). Pode parecer um conselho batido, mas muita gente é roubada por não segui-lo. “Tem de proteger bem (a doleira). E levar dinheiro trocado para evitar cair em golpes (com maquininhas de cartão). Recomendo não utilizar o celular pessoal, pois geralmente o pessoal é mais caro, o bom é tentar arranjar um mais barato, sem aplicativo de banco, nada, só WhatsApp, para poder se comunicar com as pessoas caso se perca”, afirma Beatriz, ressaltando que é sempre salutar deixar bem acertado com o grupo de amigos de onde sairão (da casa de alguém, por exemplo) e onde se encontrarão caso role desencontro ao longo do percurso.
Beatriz pronta para curtir mais um dia como pipoca
Quem também opina sobre o assunto é Diego. “(É preciso) entender que na festa as pessoas se perdem e o grupo vai se desfazer e vai se reencontrar, é a magia do Carnaval”. Para ele, é importante entender a dinâmica de quem está com você, se ela quer pegar o percurso do bloco inteiro ou não, pois são movimentos diferentes que às vezes fazem com que a gente caminhe de forma diversa e (é necessário) entender que cada um está ali pra curtir. E não dá pra cobrar um comportamento, por isso é bom estar em um grupo que tenha um nível de afinidade e amizade que proporcione uma comunicação direta e tranquila, que esteja na mesma vibe, que queira ver as mesmas coisas que você. “De repente uma pessoa quer pegar geral loucamente, está solteira, beijando (todo mundo), e se você entende que aquela pessoa não pode ficar sozinha, o beijo vai durar dois minutos e vai acabar, então é ficar atento, `cadê? Ah, tá ali, já voltou’. Mas se começar a atrapalhar (a dinâmica do grupo) é cada um por si”, observa o arquiteto.
“Carnaval não é o momento de casar, é momento de sair por aí, beijando bocas, muitas vezes sem nem saber do nome da pessoa e depois ir pra outro caminho”, diz a foliã. Mas casar não significa pedir a mão de alguém no meio da multidão. É conhecer aquela pessoa no primeiro dia da festa e se apaixonar, querer grudar e não soltar mais. Diego acredita que nessa semana especial do ano as pessoas estão mais fáceis e disponíveis “pela rapidez do encontro, ninguém está preocupado se (o ficante) vai ser mala, apesar de às vezes acontecer. Todos estão mais felizes, isso contribui para que a paquera seja mais fácil. Olhou, sorriu, pegou”, diz. Super concordo. Mas é importante interpretar sinais, é claro. E nem sei se é preciso repetir (em 2026!) que “não é não”, mas caso precise, já ficou aí o aviso. “Olhe e sorria. Sempre funciona”, diz Pedro. Menos para mim, pois não gosto de levar óculos para a rua e sou péssimo de captar quando alguém está interessado.
Para o jornalista, o maior erro de quem vem para cá nessa época do ano é não estar preparado para grandes multidões, empurra-empurra e imprevistos. “Não dá para controlar o que vai acontecer se você não estiver em um camarote longe da festa real”, afirma. O arquiteto assina embaixo, dizendo que há muitos momentos de aperto e que em alguns isso pode despertar uma ansiedade, um pânico, uma demanda em estar seguro e sair daquele contexto o mais rápido possível. “Mas a reação mais adequada é respirar e esperar, ver como aquilo vai desafogar, ver quais são as saídas, pontos de fuga, as possíveis rotas para sair com rapidez, entendendo que não adianta empurrar e ficar desesperado, pois coletivamente dá errado, às vezes é isso que incita a briga, o atropelo. Faz parte da festa, vai passar, mas é importante ter autocontrole”, pontua. Ele prossegue dizendo que alguns blocos costumam ser mais “confusentos”. “Quer ver? Quer entender como curte aquele bloco, mas não se sente à vontade? Fique mais distante antes de “se jogar”. “É para mim? Vai dar certo? É preciso fazer essas perguntas”, diz.
Respeitar a diversidade é um ponto ressaltado por Beatriz. “Entender que (a festa) é para todo mundo, tem de estar pronto para ver uma mulher beijando outra ou um trisal, (ver) as diversas formas de amor. Se não for assim, nem saia de casa”, afirma.
Alimentando o espírito carnavalesco
Sobre alimentação, a psicóloga levanta a bandeira, sim, da importância de comidas leves. Durante o dia. Já no fim da noite, na bagaceira, dá para afrouxar um pouco o cinto: “pastel, cachorro quente, uma pizza, o que der vontade”, diz. Quem também não segue a ferro e fogo o que costuma ser preconizado por nutricionistas (e também está certíssimo) é Diego Serra. “Carnaval pode ser o momento de comer uma feijoada com amigos. E está tudo bem, mas com parcimônia”, diz. Já sobre “comer água”(gíria soteropolitana para consumir bebidas alcoólicas), ele afirma ser perfeitamente possível equacionar o binômio “beber e ficar atento ao que acontece no entorno”, sem se descuidar. Dá pra achar um meio termo. Não dá pra ficar completamente desligado, ressalta, pontuando que a manha é não exagerar, evitar ficar bêbado a ponto de não conseguir ter noção das coisas, de perder o equilíbrio. “Ter sentido de vigilância, a ideia é se divertir. Ter esse olhar atento, fazer isso em grupo, (assim) fica mais seguro”, acrescentando que essa observação vale para diversos momentos, como quando surge a poucos metros a famosa fila com policiais. Quem já viveu o Carnaval de Salvador sabe que eles passam “pedindo licença”de um jeitinho “bem especial”e nessas horas ter um amigo menos bêbado no grupo é sempre útil. “Ficar altinha (com o álcool), feliz, e não perder a consciência, não ficar bêbada a ponto de ficar vulnerável, principalmente enquanto mulher”, ressalta Beatriz. Não se engane, caro leitor e leitora: a violência contra as mulheres não tira férias no Carnaval.
Rafael, Pedro e eu em 2016 (minha fantasia era de Farol da Barra, não de bispo)
“Gosto da festa como um todo, da energia que tem no Carnaval. É engraçado, parece que embute em você uma energia diferente no corpo. (No dia a dia) você pode sair em um fim de semana normal, tomar um pouco mais de cerveja e já perde o dia seguinte, mas parece que no Carnaval seu organismo entende que está mais resistente ao estrago que impõe ao limite do corpo. Acho que é o sentimento de felicidade, de libertação, de comunhão coletiva, de algum nível de magia. Gosto disso”, diz Diego.
Mas, como bem lembra Pedro, no fim a virose virá no fim. E ela sempre vem mesmo, é quase impossível escapar. O preço a ser pago? Acho que é até baixo (claro que se for uma coisa branda).
No mais, é aquilo que dizem mesmo: roupa confortável, tênis já “amaciado”, doleira, dinheiro trocado e água. E deixar para casar depois.