Freia, caralh☻

Sei que tenho uma tendência ao humor ácido, mas o assunto é sério, afinal, mexe com uma tragédia. Sempre que vou pousar em aeroportos com pistas curtas, como o de Congonhas (SP), penso logo no acidente com o avião da TAM — o voo 3054, em 2007 — que matou 199 pessoas ao não conseguir parar na hora do pouso, se chocando com uma construção ao lado da cabeceira da pista. Sei que houve um conjunto de erros (como geralmente são os acidentes de avião). No caso da TAM, o conjunto incluiu a falta de groovings (ranhuras) na pista, para ajudar a escoar a água da chuva; e erro dos pilotos na configuração das manetes de potência dos motores. Apesar de saber que o avião é um dos meios de transporte mais seguros do mundo (dizem que só perde para o elevador), não tenho como evitar. Assim que ouço aquela porrada característica de quando os trens de pouso traseiros tocam o solo, já começo uma cantilena mental: “freia, caralh☻; freia, caralh☻; freia, caralh☻”. Costuma funcionar.  

 
 Freia, por favor! Nunca te pedi nada

Freia, por favor! Nunca te pedi nada

 

Em agosto de 2016, o piloto da KLM — excelente companhia aérea holandesa — Jonathan Franklin, postou, no blog da empresa, um texto chamado “How to perform a good landing” — “Como fazer um bom pouso”, em português. Entre vários tópicos, ele explica que um pouso suave nem sempre é o melhor pouso. Basicamente quanto mais difíceis forem as condições (chuva, pista curta etc), mais “duro” o pouso deve ser. Se o contato for suave, o avião, tecnicamente, continuará por um tempo voando, o que exige mais atenção dos pilotos. Outro ponto: o freio do trem de pouso principal (o que fica sob a barriga/asas do avião) só fica mais efetivo quando o trem de pouso dianteiro toca no chão. Ou seja: nem tudo que é macio e fácil é melhor. Por mim, contanto que pouse, pode descer com força mesmo se não tiver jeito — morrerei por dentro na hora, mas instantes depois pelo menos devo conseguir sair vivo e andando da aeronave (talvez chorando).

Há um tipo de pouso que assusta qualquer pessoa — pior ainda se for um panicado como eu. É quando o avião faz a aproximação e realiza o pouso “de ladinho”. Não, isso não é raro e nem significa morte certa. Esse tipo de manobra acontece quando há vento de través e é chamado de pouso “caranguejo”, dada a similaridade com os movimentos laterais do animal. Nas condições ideais, o avião faz o pouso na direção contrária ao vento (o chamado vento frontal), alinhado com a pista. Se o vento for lateral, o piloto então aponta o “nariz” para o sentido que vem o vento, mas mantém o avião indo na direção da pista. A correção é feita apenas quando se está já perto de tocar o trem de pouso no solo. É um procedimento que exige perícia dos pilotos — por isso mesmo que eles se submetem a constantes treinamentos e atualizações. Passar por uma aterrissagem assim pode ser uma experiência assustadora — só de assistir a videos (inexplicavelmente tenho fascínio em ficar vendo coisas do tipo) já é caso de tremer e achar que está tudo errado ali —, mas está tudo no protocolo. Entrega nas mãos do piloto e acredita.

 

Cenas de pousos com vento de través em Birmingham, cidade inglesa famosa por ventos fortes

 

Caso o avião passe do ponto seguro para tocar na pista, ele então — irei dizer aqui a palavra tão temida, se preparem — arremete, ou seja, “volta a decolar” e uma nova tentativa de pouso é feita. O piloto só pousa quando está 100% seguro do procedimento. Então, arremeter, apesar de dar um susto danado nos passageiros (eu infartaria) é, no fundo, uma forma de dar segurança a todos que estão dentro da aeronave. 

Saber de tudo isso é bom, mas no fundo sei que o que funciona mesmo é o meu mantra — afinal nunca tive grandes problemas na hora do pouso. Eu que não o diga! Freia, caralh☻!

Rivorivotravel4 Comments