Na natureza selvagem: sozinho na Amazônia peruana

Conhecer a Amazônia sempre foi um desejo antigo meu que ia adiando por conta do alto preço das passagens aéreas (para quem sai de outras regiões do Brasil que não a norte, pelo menos). Fora que não existem voos diretos, sempre tem de fazer conexão em alguma cidade. E quanto mais voos para chegar a um lugar, mais pânico me dá. 

Acabei conhecendo a Amazônia de uma forma diferente.

 
 Claramente eu, sozinho, no meio da floresta amazônica

Claramente eu, sozinho, no meio da floresta amazônica

 

Estava eu em Lima, capital do Peru, quando me veio a aula de geografia na cabeça. “Cabra, tem Amazônia aqui também”.  Para quem não sabe, a floresta não para ali na nossa fronteira, ela abrange também outros países da América do Sul. Então, lá fui eu entrar numa agência de viagens bem furreca para cotar o preço de um pacote roots para lá. A primeira notícia boa que tive: o voo para Iquitos, cidade na Amazônia peruana, era de pouco mais de uma hora de duração. PONTO PRO PERU! Pedi então ao agente de turismo que me enfiasse em algum hotelzinho barato no meio da floresta. Pronto, sai de lá com tudo na mão.  

 
 Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa — a Amazônia abrange nove dos treze países sulamericanos

Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa — a Amazônia abrange nove dos treze países sulamericanos

 

O voo realmente foi rápido, graças a Jah. Uma das sensações mais lokas que já tive na vida foi sobrevoar (e pousar no meio) daquele mar verde. É indescritível. Minha vontade era gritar pros passageiros: “vocês estão vendo isso?”, mas me contive. Ainda bem que não dei um bafão que nem no fatídico voo do mestre-cuca (leia sobre esse episódio aqui).  Nessas horas só me chegam à mente as imagens de desastres na selva, sobreviventes comidos pelas feras (Sorry, gente. Pânico é pânico). O avião ia descendo e eu só rezando para que houvesse de fato uma pista lá embaixo. Ela apareceu, claro. 

 
 Iquitos — conhecida pelo apelido de "capital da Amazônia peruana" — vista de cima (Foto: Nasa)

Iquitos — conhecida pelo apelido de "capital da Amazônia peruana" — vista de cima (Foto: Nasa)

 

O aeroporto de Iquitos é pequenininho, mais parecia uma rodoviária (nada contra as rodoviárias, até adoro). Lá, peguei um mototaxi muito doido, cometendo altas confusões da Sessão da Tarde no trânsito local. Era eu segurando o homem com uma mão e a malinha na outra, ziguezagueando pelas ruas de terra batida da cidade — e grogue do remédio, claro. Não sei como não caí. Deus protege mesmo os viajantes panicados. Primeira emoção: aquele calor úmido “delicioso” (sqn), que deixaria cidades como Salvador no chinelo. Como já era fim de tarde, tive de dormir uma noite em uma espelunquinha na cidade. Apesar da vacina contra febre amarela em dia — é um pré-requisito para entrar no país —, tratei logo de me besuntar todo de repelente. Vai que….

Eu ainda tinha algumas umas horas até a escuridão total, então aproveitei para conhecer a cidade um pouco. Iquitos é uma cidade bem simples, sem muitos atrativos turísticos — além do fato de ser o portão de entrada para a Amazônia peruana. Não que a beleza de um lugar esteja ligada a sua riqueza, mas o lugar é feinho mesmo. Fui na feira local, um grande galpão com milhões de coisas diferentes. Aliás, tentem sempre ir às feiras populares. É um mundo. Aquele velho clichê de “um universo de mil cores e aromas” existe por um motivo. É bem real. Eu, claro, ia pedindo pra provar tudo. Uns frutos deliciosos (outros nem tanto). Milhares de sementes e ervas. Quando não ia gostando, dizia logo, na cara do coitado do vendedor. Efeito do remedinho, que te deixa meio away mesmo. Nota mental: evitar interações pós-voos. Saindo de lá, ainda dei uma passeada na orla do rio Amazonas e me emocionei ao lembrar do maravilhoso filme Fitzcarraldo, filmado em partes em Iquitos. A obra do cineasta Herzog  — que foi premiado em Cannes pelo longa-metragem em 1982 — é seminal. Aquele rio enorme, largo, barrento. Não vou contar mais senão meu editor, que odeia spoilers, vai me bater. Apenas te digo que o elenco conta com Claudia Cardinale (♡), Klaus Kinski, José Lewgoy e Grande Otelo. Eu me sentia o próprio Fitzcarraldo, com seu terno de linho sujo e maravilhado com aquilo tudo e respirando o bafo quente de Iquitos. Pode colocar um link pro trailer do filme aqui, editor? (Nota do editor): Tá.

 
 

No dia seguinte, era hora de pegar o barquinho que me levaria ao hotel no meio do nada. A viagem durou algumas horas, e cada momento imerso no rio Amazonas era puro WOW. O barquinho era “inho” mesmo, tipo metade de um fusquinha, mas ia ligeiro pelo rio. É muito louco ver aquele mundo de água com tantos galhos, troncos ou árvores inteiras sendo tranquilamente arrastadas por ele. Me fez pensar em como nós, seres da cidade, crescemos apartados de uma natureza exuberante da qual não conseguimos sequer imaginar a grandeza.

Bem, chegamos a salvos no hotel, que era bem pequeno e rústico, todo em madeira. Puro charm com um toque necessário de decadência. Eu era o único hóspede — e continuei assim durante minha estadia lá. Parecia uma versão selvagem do filme O Iluminado, os quartos em palafitas, todos vazios. As chamadas para os passeios organizados pelo guia (transformado em exclusivo, dada a ausência de outros hóspedes) eram feitas soando um tamborzão (uma coisa assim meio banda Carrapicho, dos anos 90, lembram dela?). A parte chata? Tive uns bons dólares roubados de minha mochila. Ponto para decorar: jamais deixar dinheiro ou objetos de valor no quarto sem um bom cadeado. 

Não saberia elencar aqui o quão desbundeantes foram aqueles dias imerso na selva… “Então que raios de escritor você é, cara pálida?”, poderia, com justa razão, indagar a leitora ou leitor. Vou então tentar descrever algumas sensações de minha experiência amazônica aqui.

O guia era de origem indígena e me levou para vários passeios no meio da mata. Me ensinou um monte de coisas, me mostrou inúmeras plantas usadas para um sem-número de coisas, de alimentação a curar doenças. Claro que nunca irei usar uma sequer na minha vida, mas valeu por conhecer esse universo novo. Pesquei piranha, fiz lindos passeios pelos igarapés da região, caminhei muito na floresta. Conheci uma tribo. Tomei banho de rio, para revolta de meu editor, sempre preocupado com a saúde desse repórter. Visitei uma comunidade ribeirinha e acompanhei o processo de transformar a mandioca em farinha. E também o preparo de uma bebida alcoólica feita com “e quem se lembra?”  — lembro apenas que era forte. Ou seja, amei. Vi árvores enormes. Imensas. Descomunais. Tive a terrível experiência de, sem querer, ficar cara a cara com uma aranha do tamanho de uma mesa. Visitei um abrigo para animais machucados — e fiquei apaixonado pela preguiça. Sério, gente, esse animal é lindo demais. E a carinha dela? ♡. Fotos de tudo isso? Péssimo hábito de não tirar fotos quando viajo sozinho.

 
 Ê, riozão

Ê, riozão

 
 
 Pulando no mesmo rio em que pesquei piranha mais cedo? Talvez

Pulando no mesmo rio em que pesquei piranha mais cedo? Talvez

 

O que mais me chamou a atenção, além da grandiosidade das coisas? Os barulhos. A Amazônia mais parece uma sinfonia de insetos e animais. No começo pode parecer um pouco assustador, mas depois que o ouvido e alma se acostumam àquela novidade, escutar esses ruídos de animais e folhas e galhos rangendo vira puro deleite. Seria talvez uma reconexão com essa força perdida que falta aos homens e mulheres da cidade grande? Hoje estou o puro creme do clichê, mas paciência. Falar da Amazônia é falar de algo primitivo ao ser humano.

 
 Trecho inundado da floresta amazônica (Foto:  www.bbmexplorer.com )

Trecho inundado da floresta amazônica (Foto: www.bbmexplorer.com)

 
 
 Muito linda a sra., viu, floresta amazônica? (Foto:  www.bbmexplorer.com )

Muito linda a sra., viu, floresta amazônica? (Foto: www.bbmexplorer.com)

 
 
 Exuberância, sons, cheiros... Experiência única (Foto:  peru.travel )

Exuberância, sons, cheiros... Experiência única (Foto: peru.travel)

 

Mas a  verdade mesmo é que a escrita não cabe na hora de descrever esse incrível bioma. Quem puder ir à selva amazônica, recomendo muito.

Ao chegar em minha casa, já no Brasil, caí de cama. Doença tropical ou saudades daquele lugar lindo? Jamais saberei.