Panicado: day one

Só de pensar em escrever sobre meu medo de voar já me dá pânico. Já preciso de uma pausa para um cigarro calmante.

Cigarro fumado, vamos lá.

 
 Não está sendo fácil

Não está sendo fácil

 

Meu pânico teve data e hora de começo. Ok, não lembro a data e a hora, mas foi lá pelos meados de 2010. Estávamos eu, meu pai e minha mãe em Erchie, uma cidade minúscula na bela região da Puglia, no sul da Itália. Ele tinha ido visitar “os seus” por aquilo que julgava — sabiamente — ser a última vez. Meu pai já estava bastante debilitado do tratamento contra um câncer de pulmão. Enfim. Hora de voltar ao Brasil, fomos até Brindisi, cidade mais próxima com aeroporto, e de lá pegamos um voo da Alitalia para Roma. O avião era um arcaico MD-80, modelo que, poucos anos depois, seria abandonado pela companhia. O pouso na capital italiana foi um terror, o aparelho jogava pro lado e pro outro mais que a loira do Tchan. Em Roma, apesar de minha relutância, nos despedimos: ele e minha mãe embarcaram para o Brasil; eu, para Paris. Meu pai era muito metódico e achava que uma vez combinado,  aquilo virava cláusula pétrea. Nos despedimos no saguão, aquela coisa banal, tchauzinho, te amo, se cuida. Quando voltei ao Brasil, dias depois, já o encontrei em coma, no hospital. Quarenta e cinco dias depois, ele morreu.

 

A foto dos meus pais ficou fofa; o voo, nem tanto

 

Por que contei isso tudo aqui? Porque tenho a certeza de que associo voar à morte de meu pai. Piece of cake, problema resolvido... my ass, continuo me mordendo de medo de voar. Até ver avião decolando, ao vivo ou em um filme, já me dá aflição. Nos anos seguintes à morte de meu pai, passei a viajar muito ao Rio de Janeiro e São Paulo, a trabalho. O pior era, definitivamente, a decolagem. Era o ápice, um crescendo que começava já na véspera — aliás, já quando chegava o e-mail com a passagem. Dava vontade de ligar para a assessoria que estava convidando pro evento e gritar “não vou viajar coisa nenhuma, se Luan Santana quiser dar entrevista, ele que venha aqui” ou algo do tipo. Mas enfim, só sei que, quanto mais a data da viagem se aproximava, mais nervoso eu ia ficando. Arredio mesmo, pacote completo, com mãos suadas, noites insones etc. A ida ao aeroporto era sempre um martírio. Controle de segurança? Uma facada. Espera no saguão? Outra facada (aliás, essa espera era equivalente a umas três facadas). Lá ia eu semi-morto simbolicamente ensanguentado, me arrastando pra dentro do avião, recebendo outras tantas facadas imaginárias. Resumo da ópera: quando o piloto anunciava a decolagem, era preciso me autoengarguelar para que o coração não saltasse pela boca e ficasse bombeando sangue ali, no meio do corredor acarpetado. 

As coisas melhoraram um pouco quando eu descobri os remédios. 

Ah, os remédios.

A partir deles, a noite anterior, outrora insone, começou a ficar mais dócil. Para ir ao aeroporto, claro, eu ia no lado do carona, pois era impossível dirigir de tão grogue por conta das pílulas que eu passei a tomar para a ansiedade. E a partir dai foi um tal de toma-lhe remédio para dentro. Na chegada, ainda no aeroporto, tinha de pedir umas xícaras de café ou uma latinha de energético para dar aquela acordada. Trabalhar grogue não dá. 

Aliás, a questão dos remédios é importante. Foi sugestão de uma psiquiatra — não resolvi me drogar assim, do nada, não. Tomemos cuidados, amiguinhos. Remédio, para quem tem pânico de voar, é ótimo; mas com parcimônia. Cada um vai descobrindo a dose certa. Eu, que já passei dos cem quilos algumas balanças lá atrás, já sei qual meu número a ser descontado na cartela. E não é baixo. Fazer o quê? Quem sabe um dia esse pânico entra numa bad trip e morre na queda do avião. Do avião dele, é claro. Que os meus sejam sempre em céu de brigadeiro.