Voar, rezar e... torcer para dar certo — a curiosa relação entre fé e medo de avião

Muita gente deve achar que avião com religiosos não cai — já até confessei aqui no rivotravel que fico um pouco mais tranquilo quando vejo que tem algum no mesmo voo que eu. Não sei de estatísticas de acidentes contendo figuras assim, mas que religioso também tem medo, ah, isso tem.  

 
Segura esse avião pelo amor de Deus, Orixás, Jah, Krishna, Tupã, Alá, energias do prana, leis de Newton, ensinamentos de Buda...

Segura esse avião pelo amor de Deus, Orixás, Jah, Krishna, Tupã, Alá, energias do prana, leis de Newton, ensinamentos de Buda...

 

Uma vez peguei um voo da Vueling (ótima companhia aérea, por sinal) entre Roma e Paris. As rajadas de vento no aeroporto italiano de Fiumicino eram tão fortes que o avião se balançou todo na hora de decolar. Pois do meu lado tinha um padre que estava meio panicado (quem tem fobia reconhece seus semelhantes). Assim que decolou (a fase mais crítica de minha fobia é justamente essa) eu peguei meu travesserinho para o pescoço e comecei a inflá-lo. No primeiro sopro ele deu um grunhido, um misto de medo e repreensão. Tenho CERTEZA de que, na cabeça dele, eu estava enchendo o colete salva-vidas (pra piorar, o fim da pista da qual decolamos em Roma dava justamente no mar). 

Mais sorte eu tive num voo da Tam (atual Latam) entre Guarulhos – Lima. Pois não é que embarcaram uma Nossa Senhora mastodôntica, do tamanho de uma mulher real, no avião? Sei lá, vai ver que acharam sacrilégio despachar como carga. Pois a bonita foi lá, toda pimpona, com direito a cinto de segurança extra para deixá-la bem presa à cadeira. Era estranhíssimo, girar o pescoço e ver, algumas fileiras atrás, a carinha angelical da Santa, com aquele sorrisinho de Monalisa. Bem, só sei que o voo foi ótimo.

 
Não achei de forma alguma a foto da imagem da santa que viajou no meu voo. Enquanto ela não aparece, vamos aqui de holy Gaga

Não achei de forma alguma a foto da imagem da santa que viajou no meu voo. Enquanto ela não aparece, vamos aqui de holy Gaga

 

Às vezes não é nem preciso estar presente algum religioso ou imagem sagrada para despertar o lado mais fervoroso dos viajantes nas horas difíceis. No final do mês passado, um avião da AirAsia X que ia da Austrália para a Malásia sacudiu tão fortemente que o próprio piloto pediu para os passageiros rezarem. Se eu estivesse dentro da aeronave nessa ocasião... (complete aqui com algum grito medonho).

Mas por que será que essa conexão com o transcendental e divino é capaz de pacificar os panicados durante o mais tenso dos voos? Por qual motivo as pessoas recorrem à fé em momentos de pânico dentro de um avião? Quem nos explica é o padre Beto. “Em momento de pânico, as pessoas acabam recorrendo às únicas coisas que elas acham ser seguras, que pode ser a presença de Deus ou a salvação Divina. É a noção — que não digo que seja correta — de que Deus pode intervir num momento desses e evitar que ocorra a queda do avião. É uma crença equivocada, mas que na hora do pânico ela é aceita e não questionada. Mas com mais tranquilidade — não no momento do pânico! — qualquer pessoa que tente argumentar esse tipo de atitude pode ser questionada, porque se Deus salvar aquelas pessoas do avião, porque não salvou outras pessoas de outros acidentes? Qual o critério? Mas na hora do pânico, as pessoas não pensam criticamente e recorrem à crença de que Deus pode fazer alguma coisa”.

 
Padre Beto — que também é escritor, cronista e filósofo — cursou teologia na Alemanha e possui diversos livros lançados. Dentre eles "Sem medo de voar", da Editora Nobel, que bem que podia ser sobre medo de avião. Queremos um, padre! (Foto: Revista Galileu, dez/2016)

Padre Beto — que também é escritor, cronista e filósofo — cursou teologia na Alemanha e possui diversos livros lançados. Dentre eles "Sem medo de voar", da Editora Nobel, que bem que podia ser sobre medo de avião. Queremos um, padre! (Foto: Revista Galileu, dez/2016)

 

Segundo o religioso, o medo, em certa medida,  nos ajuda a viver. “Se eu tenho medo de uma prova de química na escola, eu vou e estudo. É o medo que prepara. Mas existe o medo existencial — que não é o de fazer a prova de química —, é o medo que me paralisa, que faz com que eu não transcenda e não viva as experiências”, conta. Há quem seja pouco religioso no cotidiano, mas que apela para o divino quando algo ameaça a dar errado em um voo. Sobre essa questão, o padre Beto diz que a impressão que tem é a de que as pessoas buscam não pensar no assunto (questões como fé e morte). "Só quando estão no avião é que vem o medo e, em alguma turbulência, o pânico — e aí sim a recorrência a Deus". 

Mas e quando a religião nos mantêm longe dos aviões? No livro Caminhos da Alma - Coleção Memória Afro-brasileira 1 (editora Selo Negro), o autor Vagner Gonçalves conta a história do Pai Caio de Xangô, do Axé Ilê Obá. Segundo Vagner, não tinha quem fizesse Pai Caio colocar os pés em um avião. Como filho de Xangô, explica, ele tinha medo de estar entre as nuvens, consideradas a bolsa mítica do Orixá onde Ele guarda os raios e trovões. 

 
O Pai Caio de Xangô (1925–1985) alegou motivos religiosos para seu medo de viajar de avião — por essa razão nunca esteve na África, apesar de ter estabelecido vínculos importantes com sacerdotes de lá (Foto: Axé Ilê Obá)

O Pai Caio de Xangô (1925–1985) alegou motivos religiosos para seu medo de viajar de avião — por essa razão nunca esteve na África, apesar de ter estabelecido vínculos importantes com sacerdotes de lá (Foto: Axé Ilê Obá)

 

Entendo muito Pai Caio. Com raio, trovões e religião não se brinca! 

Quem tem fé pode ter medo também, amigas e amigos. Para ser um panicado basta estar vivo. Somos todos humanos. E que *insira o seu Deus aqui* nos ajude!

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