Quando viajo sem remédios

Desde que eu comecei a ter medo (medo? Pânico! Gastura! Vou morrer agora!!!), já caí na besteira, algumas vezes, de voar sem tomar remédio. Os cenários para tal bizarra situação são três. O primeiro é o de “ah, dessa vez eu vou conseguir viajar sem sofrer, vou ficar em paz” — aham, Cláudia, senta lá e espera sozinha. O segundo é — ainda — cair na conversa de Rafael, também conhecido como editor do rivotravel: “não precisa tomar remédio, não. Eu seguro em sua mão na hora da decolagem e tudo vai sair bem”. Nunca sai, até porque ele sempre começa a dormir enquanto o avião ainda está em solo, e eu que sofra sozinho. O terceiro cenário é o mais burro: às vezes, esqueço de calcular o quanto de medicação vou precisar, em relação ao número de voos que vou pegar, e me vejo sem a bendita pastilha na hora da viagem. Esse é o pior caso: ficar catando remédio pela casa, vendo se ficou algum solto pela mala. Nunca acho. Vou começar a esconder cartelas atrás dos quadros, que nem os viciados em outras drogas. 

 
 Arte? Talvez sim. Essa colagem que o  rivotravel  fez retrata bem o pânico que antecede o voo e a promessa de conforto que um bom remedinho traz

Arte? Talvez sim. Essa colagem que o rivotravel fez retrata bem o pânico que antecede o voo e a promessa de conforto que um bom remedinho traz

 

Nessas situações de viajar sem estar dopado, invariavelmente, tudo é terror. Dormir na véspera já é um martírio. Os piores pesadelos surgem. Isso quando consigo de fato dormir. Aviões explodindo no ar me chegam à mente, trazendo frio na espinha, suadeira, mesmo no “mais rigoroso” inverno (real ou do ar condicionado). No dia da viagem, é um tal de me arrastar para o aeroporto, um verdadeiro zumbi, um condenado à morte em direção ao matadouro. Tenho pena das funcionárias das companhias aéreas. É sempre uma chuva de perguntas: “o voo está no horário?” (sim, porque se não está sempre penso que estão escondendo algum problema mecânico na aeronave); “a minha poltrona da sorte (penúltima fileira, no corredor, do lado direito) está reservada mesmo para mim?”, “se eu desistir de embarcar no último momento vocês me dão um crédito?” e por aí vai.

Quando estou devidamente medicado, a situação melhora muito. Esses momentos que antecipam o voo e que são invariavelmente tensos se tornam mais suportáveis. Isso sem falar na hora H dentro da aeronave. Não vou dizer que fico 100% pânico-free depois de uns comprimidos, mas quando não estou controlado quimicamente, todos os aviões parecem ter como destino certo a morte. Recomendo a todos que sofrem do mal que procurem um psiquiatra para conversar sobre o assunto. É um tipo de medo que pode trazer muito sofrimento e ter impactos em diversas áreas da vida. Saúde e bem-estar são importantes, não é mesmo? Ajuda profissional e remédios tão aí para isso (escrevi já uma matéria no rivotravel sobre o assunto — leia aqui).

Continuando com meu calvário de quando não estou medicado: é tudo um martírio só — parte II.

E a espera na sala de embarque? Ah, a espera. Morte certa. Não consigo ler, não consigo escrever, só esperando o momento de entrar naquele cilindro metálico que pesa toneladas e que, olha só, sai do chão! Tudo que já li a respeito parece que não existe. Não há provas boas o suficiente de que voar naquilo ali é uma boa ideia. Sempre gosto de ser o último a entrar no avião, em uma vã tentativa de ficar o menor tempo possível fora dele. Como se adiantasse alguma coisa... Lá vou eu, me arrastando, passando pelo corredor do avião, olhando bem os passageiros. Tem criança? Deus não seria tão mau a ponto de derrubar avião com criança dentro (uma mentira que conto pra mim mesmo). Tem padre? Ter padre ou freira (ou hare krishna, ou rabino, ou mãe de santo, ou qualquer ser vivente com conexão com o Divino) no avião é sempre bom. Nessa romaria rumo à minha poltrona, às vezes, juro que me comunico com o olhar com outro panicado ou panicada a bordo: a gente se reconhece. Aquele olhar esbugalhado, aquele sentar teso, duro. É batata. Estamos juntos, colega.

 
 Um pouquinho de Guernica de Picasso aqui, uma pitada de futurismo ali, umas pílulas e bastante desespero de quem precisa de remédios para voar

Um pouquinho de Guernica de Picasso aqui, uma pitada de futurismo ali, umas pílulas e bastante desespero de quem precisa de remédios para voar

 

Quando o avião fecha as portas, aí sim é que ferrou tudo: minha última chance de escapar escorreu pelos meus dedos. Agora já era. É rezar para que a morte seja indolor. Começo a reparar em todos os detalhes. O avião parece velho? Ponto pro pânico (que já começa o jogo em vantagem, pela falta do remédio). As demais pessoas estão se sentindo seguras? Faço também o contato visual com as aeromoças. Sempre busco o menor sinal de que algo está errado, apesar de saber que a carinha sorridente delas sempre pode mascarar um problema. E se tem algum barulho estranho na aeronave já acho que ela não vai conseguir decolar. Aliás, eu falei barulho estranho? Melhor dizer “qualquer barulho”. Nessas horas, tampões de ouvido me acalmam, pois geralmente estou tão panicado que nem música consigo ouvir no iPod. A essa altura, as mãos já viraram duas lagoas de tão suadas. Ai que vontade de estar numa linda lagoa nessas horas…

Aí chega o momento da decolagem. Para mim, é o pior momento. Já estou semi-morto por dentro, daí para a morte completa em uma explosão já seria uma ajuda para a Dona Morte. O avião acelerando e eu duro na cadeira, não acreditando que as pessoas estão ali de boa, conversando, rindo, dormindo. Elas estão cientes de que a decolagem é um momento crítico? Não devem saber, só pode. É quase uma afronta para mim. Na hora da decolagem, acho que deveríamos estar entoando cânticos de louvor para todas as divindades existentes. Quando o avião deixa o solo, aí é “só” ficar de olho grudado no aviso de soltar os cintos de segurança, que demoram intermináveis minutos para serem desligados. E se demora um pouquinho mais que o habitual, já acho que deu alguma coisa errada e que o avião vai voltar ao aeroporto. Isso se houver chance de voltar, pois nessas horas já me vejo envolto em uma bola de chamas.

Passado esse momento crítico, as coisas até que melhoram, a partir daí é olhar sempre para o relógio, para ver quantas horas faltam para o pouso salvador. E fazer uma nota mental: nunca mais voar sem remédios. Nunca.