Sensação de controle: a falsa impressão de estar no comando também deve embarcar?
Muitos de nós — inclusive eu — temos a necessidade de sentir que estamos no controle de tudo que envolve nossas vidas, nossos pensamentos, nossas decisões, nosso presente e nosso futuro. Claro que muita coisa que planejamos acontece, mas sempre devemos (ou melhor, deveríamos) deixar margem para o inesperado. Certa vez, muitos anos atrás, lá no início do rivotravel, fiz umas perguntas a uma leitora do site para um possível texto do Entrevista com o Panicado, uma série que há muito tempo não aparece por aqui. Lembro que, lendo as respostas que ela deu, fui apresentado à visão de que não temos controle de nossos destinos uma vez que entramos em um avião. Essa pessoa, por meio da religião — acho que o budismo ou alguma outra crença oriental — conseguiu vencer, ou pelo menos controlar, o medo de voar ao interiorizar que ela não tinha como estar no comando da situação quando entrava em um avião. Aliás, não só nessas horas, mas na maioria dos momentos da sua vida.
Achei aquela visão muito interessante. Afinal, vale um pouco para todos nós, 8,3 milhões de habitantes deste pequeno planeta azul.
Ontem troquei mensagens com outra panicada e o assunto tornou-se à baila. Essa questão, quase filosófica (aliás, esse é um dos campos do conhecimento que trata esse assunto), parece ter caído como uma luva nesse domingo chuvoso do outono de Salvador. Por enquanto são apenas elucubrações de uma mente perturbada (a minha, caso não tenha ficado claro). Mas ainda quero fazer uma matéria maior, mais aprofundada, com algumas entrevistas com passageiros que sofrem deste problema de “abrir mão do comando” e especialistas em várias áreas, como psicologia, teologia, filosofia e literatura — e outras expressões artísticas —, abordando sempre os medos e a questão do não poder ter nas mãos a decisão dos atos. De todo modo, acho que eu posso começar a pensar um pouco sobre o assunto, digamos que um prelúdio dessa matéria mais completa.
Acredito que a aerofobia pode, sim, ser o medo da morte, mas também o pânico de admitir que não temos as rédeas de nossas vidas ao entregá-las a profissionais (muito capacitados, diga-se de passagem) como comandantes, comissários, mecânicos aeronáuticos e controladores de voo. Querer ter o controle de tudo é muito exaustivo. É um aperto de mente, como diria meu marido. Eu sofro demais com isso. Por exemplo, odeio quando as coisas não acontecem exatamente da forma como eu planejei, muitas vezes sem nem ter comunicado minhas intenções e desejos a quem está comigo (como ela poderia saber? Telepatia?). Aliás, em nossas vidas, podemos dizer facilmente que temos pouco controle de fato das coisas. Cotidianamente entramos em elevadores sem saber quem fez a manutenção, comemos em restaurantes sem saber sobre a limpeza da cozinha, tomamos medicamentos produzidos por pessoas que nunca vimos e atravessamos pontes projetadas por engenheiros desconhecidos. Os exemplos são inúmeros. São situações sobre as quais não pensamos no nosso dia a dia. Ou, se raciocinamos sobre isso, são elucubrações que não nos bloqueiam.
Tirando um exemplo aqui, outro ali, no geral, estamos sempre com a falsa sensação de controle. Como se fôssemos verdadeiros deuses soberanos na Terra.
Muita gente com quem converso traça paralelos com o ato de dirigir. Dizem se sentir muito mais seguros quando estão ao volante, pois, assim, têm mais controle. Mas será mesmo? Não sabemos se nosso carro tem algum defeito escondido, daqueles pequenos que passam batido nas revisões — se é que o veículo está com elas em dia. Desconhecemos se os demais motoristas na estrada estão atentos e despertos, não temos como definir a conservação do asfalto e das sinalizações e não sabemos se alguém bebeu antes de dirigir. Não quero espalhar o pânico e dizer que tudo está perdido, mas apenas mostrar que a “falta de controle” não impede que a gente viva nossas vidas e nem está restrita aos aviões. Afinal, como sabemos, matematicamente aeronaves são muito mais seguras que carros. Acidentes de avião são extremamente divulgados. Acidentes de carro, muito mais corriqueiros, não. Então nossos cérebros acreditam que avião é mais perigoso — pelo menos em nós, que sofremos de aerofobia. Meu marido ama viajar pelos céus, mal embarca e já começa a cochilar, mas odeia pegar estrada, sobretudo de ônibus (coisa que eu amo). Não está certo ele?
Mas, mesmo com tanta informação, temos medo do que está fora de nosso controle.
Seria esse um mal do século? Afinal, nos vendem, desde a nossa infância, a falsa ideia de que somos senhores de nossos destinos (essa expressão inclusive eu quase tatuei após vê-la em um diálogo do filme Invictus, com Morgan Freeman e Matt Damon). A publicidade nos vende a noção de querer é poder, eu quero o produto, eu vou e compro. Total domínio de sentimentos, sensações, pensamentos (e da conta bancária). Mas será que é bem assim que funciona na vida, essa vida real fora das telas? Nossa geração, talvez mais que as outras, anuncia essa falsa ideia. Redes sociais, coaching, empreendedorismo, produtividade, planejamento. O mundo parece girar em torno da ideia de controle — afinal, ele rende mais dinheiro para as empresas. Até que chega a hora de entrar em um avião e nos lembramos que não somos tão poderosos assim.
Por falar nisso, nem nessa seara do dinheiro conseguimos prever tudo. Por exemplo, agora em maio surgiram gastos que não estavam previstos no meu orçamento. E junho nem começou e outras surpresas já me esperam para o próximo mês, como uma conta mais salgada no dentista por conta de um tratamento inesperado que terei de fazer. O procedimento, inclusive, é por conta de uma retração de gengiva. Possivelmente causada por uma escovação frenética, que por sua vez deve ser fruto da ansiedade, esse problema quase geracional. Ansiedade que é avassaladora na hora de entrar em uma aeronave.
Voltando ao nosso objeto de temor, o avião talvez seja um dos poucos lugares nos quais somos obrigados a admitir algo que tentamos esconder o tempo todo, a saber: quase nunca estamos no controle. Diante desta situação estressante, o que fazer? Como abraçar o caos e introjetar que não temos o controle total das coisas?
Ou talvez a resposta esteja dentro de cada um de nós, como diria algum livro de autoajuda ou um filme cujo nome agora não me lembro.
Fica a pergunta no ar — talvez a ser respondida na parte dois dessa matéria. Ou não. Talvez a preguiça me vença e eu nem faça a parte dois. Não tenho controle sobre o futuro.