Cidades em cena #01: Roma

Começamos hoje uma nova categoria de matérias aqui no rivotravel: a Cidades em Cena. Sim, pois desde que os filmes deixaram os estúdios e pegaram as calçadas (e ruas, praças, praias etc), a sétima arte passou a ficar eternamente ligada às cidades. E quer motivo melhor para mostrar um lugar do que um bom filme? Uma cena num café, uma conversa em um parque, uma discussão no meio da rua. Pense em seus filmes preferidos e tente imaginar como eles dialogam com os locais onde são gravados. Muitas vezes tais locações acabam até fomentando o turismo — quem nunca quis conhecer onde foram filmadas certas cenas ou produções inteiras? E para iniciar essa jornada, escolhi Roma, um dos locais que mais me encantam nesse planeta.

 
 Roma, a Cidade Eterna, inaugura a mais nova série de matérias do  rivotravel

Roma, a Cidade Eterna, inaugura a mais nova série de matérias do rivotravel

 

A Cidade Eterna foi palco de filmes memoráveis do chamado neorrealismo italiano, como Roma, Cidade Aberta, de Rossellini; e Ladrões de Bicicleta, de Vittorio de Sica, para citar apenas alguns. Ambos foram filmados na Roma destruída pelas bombas na Segunda Guerra Mundial. E nada de maquiar as coisas, não. A capital italiana é mostrada com suas feridas — o neorrealismo explorava bastante as cenas em locais abertos e o uso de atores não-profissionais. 

 
 Famosa cena de  Roma, Cidade Aberta , na qual Pina (Anna Magnani) corre atrás do caminhão no qual está sendo levado o marido preso, na Roma da Segunda Guerra Mundial

Famosa cena de Roma, Cidade Aberta, na qual Pina (Anna Magnani) corre atrás do caminhão no qual está sendo levado o marido preso, na Roma da Segunda Guerra Mundial

 

Um pouco mais pra frente — mais precisamente em 1960 —, é lançado La Dolce Vita. Tive o prazer de ver esse maravilhoso filme na própria Roma, em um pequenino cinema “de arte” de poucos lugares. Lembro de ter saído em êxtase de lá, tarde da noite, andando pelas ruas já quase desertas da cidade. Que experiência! O filme ganhou a Palma de Ouro de Cannes e o Oscar de melhor figurino. Como esquecer a famosa cena na qual a atriz Anita Ekberg chama o personagem interpretado por Marcello Mastroianni para dentro da famosa Fontana di Trevi, de noite, em pleno centro histórico? Um sonho meu: entrar na fonte um dia. Alguns malucos até entram, mas não sem ir depois prestar esclarecimentos à polícia. A fonte foi concluída em 1762, depois de 30 anos de trabalhos, sob encomenda do Papa. Hoje, é parada obrigatória dos visitantes. O imenso fluxo de turistas, é verdade, quase consegue ofuscar a beleza do lugar. Uma dica: se puder, vá até a fonte de madrugada, quando as hordas já estarão recolhidas em seus hotéis. Aliás, caminhar pelas ruas e vielas romanas tarde da noite é um prazer sem igual. Acho que isso vale para todas as cidades. E não tem como estar lá, diante da fonte semi-deserta, e não se lembrar da famosa cena.

 
 Bastidores do filme  La Dolce Vita , no qual os personagens vividos por Marcello Mastroianni e Anita Ekbert se banham na Fontana di Trevi

Bastidores do filme La Dolce Vita, no qual os personagens vividos por Marcello Mastroianni e Anita Ekbert se banham na Fontana di Trevi

 

Roma também contribui para o cinema com os estúdios da Cinecittà. Inaugurado sob o regime fascista, hoje eles ainda são usados em filmes e séries. Do passado, podemos destacar produções de consagrados diretores, como  Federico Fellini, Francis Ford Coppola, Luchino Visconti e Martin Scorsese. Foram filmadas lá grandes produções hollywoodianas que retratam a grandiosidade do Império Romano, como Quo Vadis? e Ben-Hur. Mas nem só de Roma antiga vive a Cinecittà, a exemplo de longas como O Paciente Inglês e Gangues de Nova York, dentre outros. Em frente aos portões principais da Cinecittà encontra-se o Centro Sperimentale di Cinematografia, centro de excelência no ensino da sétima arte. É possível visitar os estúdios da Cinecittà (informações em italiano, inglês e francês aqui).

 
 Set de filmagens de  Rome  — série de tv da HBO — na Cinecittà, na cidade de Roma (Foto:  Carole Raddato )

Set de filmagens de Rome — série de tv da HBO — na Cinecittà, na cidade de Roma (Foto: Carole Raddato)

 

“Minha primeira viagem a Roma foi de apenas dois dias, mas a Cinecittà era algo imprescindível no roteiro. Muito antes de planejar uma viagem a cidade eu já tinha essa atração em mente”, conta o jornalista brasileiro Mitchel Alvarenga. Ele afirma que deixou de ver algumas atrações turísticas de Roma para poder encaixar uma visita ao museu e aos estúdios. “Fui a Roma duas vezes e nas duas estive na Cineccità. A primeira foi uma experiência bem chuvosa e sem guia. Achei o museu simples, mas bem empolgante! Na segunda já fiz um tour pelos estúdios e achei fundamental. À época eles estavam filmando o longa Everest por lá. Foi bom ver o estúdio na ativa”, afirma. 

Se você estiver andando nas proximidades do Coliseu e “cair” em um grande descampado, é bem provável que esteja em território do antigo Circo Massimo, onde eram disputadas as lendárias corridas de brigas, tradicional veículo usado na época dos Césares. Hoje não sobrou nada no lugar, que é muito usado pelos romanos para caminhadas. Mas só de estar no lugar e se imaginar no meio de uma daquelas disputas — magistralmente reproduzidas no já citado Ben-Hur — já é bastante inspirador. E já que falamos em Coliseu, como não lembrar de O Gladiador? O filme tem lá seus defeitos, mas é impossível negar que as cenas de lutas são ótimas. E sabiam que o nome do Anfiteatro Flávio (como foi batizado oficialmente) é devido a uma estátua colossal que existia ao lado dele quando foi inaugurado, há dois mil anos? Não sobrou pedra sobre pedra da estátua para contar história, mas de seu vizinho, sim, para alegria dos turistas. Eu, particularmente, acho o Coliseu mais magnifico visto de fora. É meio decepcionante entrar e vê-lo oco, vazio. Mas se você for uma pessoa criativa, tente se imaginar dentro de uma batalha — nas arquibancadas, claro (o filme ajuda a dar asas à imaginação nessas horas). O exterior era todo recoberto com placas de mármore, que acabaram sendo arrancadas para usos em outras construções. 

 

Uma das cenas mais memoráveis da história do cinema: a corrida de brigas em Ben-Hur (1959) se passa no Circo Massimo em Roma. O filme levou apenas 11 Oscars pra casa

 

Como já disse aqui, nem só de passado vive o cinema feito em Roma. Filmes mais contemporâneos mostram toda a magia romana. A lista é grande e vai de Doze Homens e Outro Segredo (super estrelar, com nomes como Matt Damon, Brad Pitt, George Clooney e outros colírios para moças e moços)  a Comer, Rezar e Amar (com Julia Roberts, que também atua em Doze Homens e Outro Segredo), passando ainda por Para Roma com Amor, de Woody Allen (com lindas cenas nas ruínas do Mercado de Trajano e no Fórum de Augusto) e O Talentoso Ripley (que sonho ver a diva Cate Blanchett sendo linda em Roma, passando por pontos como a Piazza di Spagna).

 
 Cena de  O Talentoso Ripley  em que Tom Ripley (Matt Damon) passeia pelos Musei Capitolini — aliás, fica a dica: o acervo é maravilhoso

Cena de O Talentoso Ripley em que Tom Ripley (Matt Damon) passeia pelos Musei Capitolini — aliás, fica a dica: o acervo é maravilhoso

 

Quem gosta de filme de máfia pode encontrar um exemplo bem atual em Suburra (que vai virar série da Netflix), super elogiada por críticos e público. O longa mistura religião (não podemos esquecer que o Vaticano, apesar de oficialmente ser um país independente, está encravado bem no meio de Roma), política e máfia. Há muitas cenas no decadente Lido di Ostia, na orla romana — a capital italiana está bem perto do mar, mas não chega a alcançar o Mediterrâneo. Vemos em Suburra todo a corrupção por trás da deslumbrante Cidade Eterna. O nome do filme, aliás, vem de uma zona com “má fama” na antiguidade, local com muitas casas de jogos e bordéis, em um ambiente também frequentado secretamente por membros das grandes famílias da Roma antiga onde as negociatas mais escusas eram consolidadas — o longa sugere, assim, que pouca coisa mudou de lá pra cá. 

 

As legendas do trailer estão inglês, mas dá pra sentir a atmosfera densa criada pelo filme italiano Suburra — além de uma Roma moderna, imponente e eternamente bela

 
 
 Piazza della Suburra: último vestígio da região da Roma antiga que batiza o filme — bem pertinho da estação de metrô Cavour, pra quem quiser conhecer

Piazza della Suburra: último vestígio da região da Roma antiga que batiza o filme — bem pertinho da estação de metrô Cavour, pra quem quiser conhecer

 

Um outro exemplo mais atual que eu mais amo é A Grande Beleza (vencedor do Globo de Ouro e do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2014). Se você já viu o filme certamente se lembra da forma carinhosa como o diretor Paolo Sorrentino presenteia os amantes de Roma com tomadas lindíssimas. E como se esquecer da balada em um terraço que abre o filme, com direito a uma versão eletrônica do clássico A Far l’Amore Comincia Tu, da cantora, atriz e apresentadora (praticamente uma Hebe Camargo) Raffaella Carrà? O longa é uma ode à cidade, um verdadeiro poema visual. Traduz perfeitamente o deslumbre e a estranheza que a cidade, com sua escala magistral, pode causar. Não é à toa que o filme começa com um turista desmaiando na cidade. Roma é capaz de despertar os mais diversos sentimentos. Há quem a ache caótica demais, barulhenta demais, sucateada demais. Eu só vejo uma grande beleza. 

 
 
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