Medo de decolagens

“Atenção, tripulação, preparar para a decolagem”. Para muitos, ouvir essa frase — seguida do terrível som dos motores em potência máxima para tirar muitas toneladas do chão — é um verdadeiro martírio. Hora de pensar: “é isso, acabou”. Comigo é assim. E não estou sozinho nessa. Entrevistei quatro panicadas que também acham que essa etapa figura entre os piores (ou o pior) momento da viagem aérea.

 
 

“Acho que a decolagem é o ápice da ansiedade pré-voo. A sensação é de que, se algo ruim for acontecer, será ali. Se for em um aeroporto de pista curta, essa sensação piora e a impressão que dá é que o avião não vai conseguir levantar a tempo”, afirma a jornalista Anna Luiza Costa. Ela não é a única. “Mal consigo pensar nas sensações físicas porque é realmente um presságio de morte a impressão que o corpo tenta me passar”, conta a autônoma Luane Mendes. A biomédica Adriana Marcondes Mori, por sua vez, diz que nessa hora ela sente o coração acelerar quase imediatamente, como se o corpo entrasse em alerta máximo. As mãos ficam frias, a respiração fica mais curta e ela percebe uma tensão muscular, principalmente nas pernas e nos ombros, acrescentando também que o corpo reage como se estivesse em perigo real. “É uma sensação de perda de controle — o avião ganhando velocidade, o barulho aumentando, aquela pressão no peito — tudo isso ativa uma resposta muito física em mim”, relata a biomédica. Essa impressão é compartilhada pela professora Débora Viana de Alencar: “acredito que seja o momento em que eu sinto a maior sensação de perda de controle, de não ter para onde fugir”.

 

Luane (“com a cara inchada de chorar”, diz) e o marido, Lucas, voltando para São Francisco (EUA), onde moram; e Luane no aeroporto da cidade estadunidense, ambas em 2021

 

Se a decolagem é o ápice do medo, isso significa que a angústia inicia muito antes e que vai crescendo como uma espiral aterrorizante. “Não começa no aeroporto, começa no momento em que eu sei que tenho uma viagem marcada. Mesmo que faltem meses, meu corpo já reage. Só de pensar na decolagem, sinto o coração acelerar”, relata Adriana. Para ela, o momento em que o avião começa a correr na pista é o cume da taquicardia e da sensação de alerta. Quem também sofre por antecipação é Luane. “A ansiedade tenta estender suas garras sob a minha mente a partir do momento que a passagem é comprada. É sempre a alegria pelas férias misturada com a ansiedade pelo voo. A decolagem é o momento que o intestino diz: ‘se tiver alguma coisa eu não consigo segurar!’”, afirma.

Quando a viagem aérea é inevitável, cada uma encontra sua forma de minimizar esse momento tão angustiante. Afinal, não importa se vai ser São Paulo–Rio de Janeiro ou São Paulo–Nova York: curto ou longo, o voo vai ter decolagem. Débora conta que nessas horas tensas tem um ritual: ouvir sempre a mesma música, uma canção que a acalma um pouco. “Faço isso há alguns anos já. Faço mais porque sinto que se não fizer isso toda vez, algo vai dar errado. A música é Invisible String, do álbum Folklore, da Taylor Swift”, responde. Coincidentemente, Anna Luiza também aposta num grande nome da música mundial para tentar relaxar: “eu ouço Britney Spears na decolagem e no pouso. Antigamente era durante todo o voo, agora já consegui diminuir para esses momentos”, diz.

 

Adriana e o marido, em 2021, indo para Fort Lauderdale (EUA); e Adriana na cabine de comando de um avião em 2018, em Lages (SC): após um voo no qual chorou o tempo inteiro, a panicada foi convidada para conhecer o espaço onde ficam os pilotos

 

Já Adriana apela para uma prática mais antiga e quase universal: ela reza. “É a forma que encontrei para atravessar aquele momento inicial de ansiedade. Rezar me dá uma sensação de amparo e me ajuda a direcionar os pensamentos para algo maior do que o medo que estou sentindo”, pontua. Com essa tática, a ansiedade da biomédica não desaparece completamente, mas a oração a ajuda a diminuir a intensidade da taquicardia e a atravessar os primeiros minutos do voo com mais estabilidade.

Algumas panicadas entrevistadas têm horror de alguns aeroportos específicos. Como é o caso de Anna Luzia.  “Congonhas eu tenho pavor. Durante anos eu escolhia viagens para Guarulhos, mesmo sendo muito mais longe. Santos Dumont não tenho problemas porque penso: ‘bom, se não for, tô na água’”. Luane também fica com os dois pés atrás com um certo terminal. “Eu moro na região da Baía de São Francisco, na Califórnia (EUA), há quase oito anos. E o aeroporto de São Francisco é conhecido pelos fortes ventos que vêm do oceano Pacífico. Foram nesse aeroporto as piores decolagens que já tive e infelizmente vou ter que continuar tendo”, conta.

 

Quem olha as belas fotos feitas por Anna Luiza nem imagina o sofrimento dela, que aparece na segunda foto em um voo do Rio de Janeiro para Lisboa, em 2024

 

Há decolagens que são particularmente desafiadoras ou mesmo traumáticas. Como uma experiência vivida por Débora. “Já passei por uma decolagem abortada; o avião estava levantando quando abruptamente voltou ao chão. Acho que foi um dos momentos mais assustadores da minha vida”, relembra a professora. Luane também já teve péssimos momentos dessa fase de início de viagem aérea. Ela diz que a mais bizarra foi uma com muito vento na qual a aeronave foi jogada para o lado poucos segundos após sair do chão. “O piloto teve que adicionar mais força nas turbinas, fazendo com que o avião chacoalhasse ainda mais no ar. Eu compararia com dirigir na chuva, aquele momento que você passa numa lâmina d'água e o carro aquaplana”, exemplifica Luane.

 

Débora em Londres, em 2024: viajar é ótimo, pena que há uma decolagem (ou mais) no meio do percurso

 

Passado esse momento de subida terrível para as quatro viajantes, é possível “negociar” um pouco com o medo de voar, deixando-o de certa forma em modo avião (trocadilho que veio a calhar). É o que acontece com Anna Luiza. “Relaxo quando o anúncio de cintos apaga. Essa é a hora que geralmente levanto, vou ao banheiro, dou uma respirada e me preparo para o resto do voo”, diz a jornalista. Quem também respira mais aliviada é Adriana. “Depois da decolagem eu consigo relaxar um pouco, sim. Aquele pico inicial diminui, mas eu não fico totalmente tranquila. Mesmo tomando as gotas (de remédio para ansiedade) antes do voo, eu ainda permaneço em estado de alerta”, diz Adriana. Ela prossegue ressaltando que qualquer barulho diferente, qualquer chacoalho ou até um simples aviso de atar os cintos aceso já fazem seu corpo reagir de novo. A taquicardia volta rapidamente. “É como se eu estivesse sempre monitorando o ambiente, esperando algo acontecer. Hoje eu entendo que isso não tem relação com risco real, mas com hipervigilância. Meu corpo fica procurando sinais de perigo, mesmo quando racionalmente eu sei que estou segura”, conclui.

É aquela coisa: sabemos que voar é seguro, mas nossos medos são reais.

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