Cantando eu mando o medo embora? — conheça a Psicoterapia Vocal Musicocentrada
No meu último voo, em dezembro, passei por uma experiência interessante: coloquei uma música bem alegre do ABBA (amo o grupo sueco) e passei a cantar (baixinho, claro) nas horas mais aflitas do voo. E não é que deu certo? Fiquei curioso então, a ponto de fazer a indagação que dá título a esta matéria. Será que cantar pode diminuir nossos temores? Para conversar sobre isso, entrevistei a musicoterapeuta e professora de canto Carolina Veloso, uma das fundadoras do Instituto de Criatividade e Desenvolvimento (ICD), em Porto Alegre, cidade onde também coordena o Espaço Voz, lugar destinado ao desenvolvimento e prática da Psicoterapia Vocal. Com formação em psicanálise e especialista pela Universidade Federal de Pelotas – UFPel — instituição onde ela também fez a graduação em canto lírico —, ela trabalha atualmente com um ramo recente dos estudos da área, a Psicoterapia Vocal Musicocentrada.
“A música é um fenômeno vivo e transformador, possuindo a mesma importância ou maior relevância em um processo de dinâmica terapêutica (música - paciente - terapeuta). Acreditamos que todo ser humano é um ser musical, a musicalidade é inata e inerente a qualquer pessoa e todos nós somos sensíveis aos sons e à música. Portanto, entendendo que este ser humano é um ser musical (um Homo musicus), esta é uma prática de tratamento que engloba não somente a fala (o diálogo) mas também o uso da voz cantada, o uso da respiração, dos sons vocais, jogos vocais, canções e o uso do divã, para que a pessoa possa vocalizar, relaxar e fazer conexões com seus traumas e sua história e assim fazer associações livres, como proposto em Freud na psicanálise, associando livremente, acessando o inconsciente e podendo perceber a causa dos medos e angústias, inclusive o medo de voar”, explica Carolina.
Ela diz que a Psicoterapia Vocal Musicocentrada atua com diversas demandas clínicas, voltadas para o atendimento da criança, adolescente, do jovem adulto, adultos e idosos. Um dos objetivos é explorar a voz nas experiências musicais associadas ou no lugar dos tradicionais discursos verbais. Em sua prática como professora de canto e também musicoterapeuta, ela foi percebendo como as pessoas se emocionavam com a potência das suas próprias vozes e externavam conteúdos emocionais muito intensos e profundos, muitas vezes conectados com suas relações familiares e afetivas. “Nesta dinâmica fui percebendo que a música pode auxiliar meus pacientes a conectarem-se com sentimentos autênticos e com a sua verdadeira voz, ajudando no processo de cura no sentido de integrar e experenciar sentimentos, imagens e memórias, produzindo uma experiência reparativa de traumas do passado”, afirma a especialista.
Na entrevista, contei a Carolina o que aconteceu comigo quando cantei as músicas do ABBA no avião. Será que o alívio momentâneo que senti foi “coisa da minha cabeça”? “A escolha que fizeste desta música tem a ver com a conexão com a tua musicalidade, desta maneira, os parâmetros musicais desta canção, com sua força dinâmica, sua vitalidade, sua harmonia e melodia te ajudaram a relaxar e a sentir prazer, sendo acessado no núcleo da tua musicalidade foi possível “destravar” a condição, aliviando os sintomas de medo e angústia de voar”, observa a musicoterapeuta.
Muitas vezes estamos em locais públicos onde cantar alto ou mesmo em uma altura “ambiente” é impossível, como dentro de um avião. Será que cantar baixinho ajuda? Segundo Carolina, alguns métodos de musicoterapia auxiliam e ajudam os clientes a ter melhor qualidade de vida e bem-estar. São três principais métodos, enumera a professora: criativo, que engloba improvisação e composição; recriativo (que é cantar e tocar músicas preexistentes) e o receptivo (ouvir música). O método receptivo, explica Carolina, é a escuta de sons e música ajuda na regulação e estabilidade emocional, por isso, o fato de ouvir uma canção que seja significativa para o sujeito, já auxiliará de forma positiva e ajudará na conexão com suas emoções e sentimentos, relaxando o corpo e a mente.
E será que é possível pensar em uma "cura" total da aerofobia apenas com a musicoterapia? A especialista pontua que depende da singularidade de cada processo. “O entendimento de cura é amplo e, como disse mais acima, o processo de “cura” se dará no sentido do paciente poder mergulhar profundamente nas suas questões, traumas e medos e poder integrar e experenciar sentimentos, memórias, imagens, projetando-as na voz e encontrando-se nela. Neste processo com a música e conexão com sua própria voz, este sujeito vai podendo reparar seus medos, suas angústias e traumas”, explica.
Já vou fazer uma playlist de músicas bem dançantes para cantar baixinho nos próximos voos.