Histórias de acidentes não fatais e o que eles têm a nos ensinar #06 — Milagre de Gottröra
Caso você já tenha lido as outras edições da série (links no final desta matéria!), sugerimos pular a introdução abaixo:
A ideia de fazer essa série veio de uma inquietação. Apesar de nosso consciente saber que o avião é um meio de transporte super seguro, ganhando de lavada de outros como carro ou ônibus, ainda assim muitos se veem indo em direção à guilhotina cada vez que entram em uma aeronave. Visualizando aquela estrutura metálica envolta em uma bola de fogo com destino à morte. Acontece que muitos incidentes que ocorrem durante o voo sequer são percebidos pelos passageiros (e isso é tema para uma outra matéria), pois são resolvidos sem alardes pelos comandantes. E mesmo os de maior gravidade, que geralmente levam a um pouso de emergência, muitas vezes acabam sem vítimas fatais — ou mesmo sem feridos. Por isso, para tranquilizar as panicadas, panicados e simpatizantes, resolvi fazer essa série, para desmistificar a ideia segundo a qual todo acidente é fatal. Trazer à tona casos que, devido à perícia da tripulação ou à alta tecnologia do avião, não passaram de um grande susto. “Acidentes que ameaçam a vida (inclusive aqueles que não têm sobreviventes) são muito raros. Um evento desses só ocorre a cada 5,7 milhões de partidas”, afirmou, em 2017, em entrevista à BBC Brasil, Edwin Galea, professor da Universidade de Greenwich — ele é matemático, especialista em engenharia de segurança e desenvolvedor de simulações. ”Digamos que se uma pessoa voasse todos os dias, experimentaria um acidente catastrófico em algum momento dentro dos próximos 2,7 mil anos”, declarou ao mesmo veículo de comunicação Perry Flint, porta-voz da IATA (Associação Internacional de Transporte Aéreo, da sigla em inglês).
Vamos então aos fatos!
Na manhã gelada de 27 de dezembro de 1991, um novíssimo McDonnell Douglas MD-81 (saiu da fábrica em abril daquele ano) da Scandinavian Airlines System (SAS) decolou do aeroporto de Arlanda, em Estocolmo, capital da Suécia, rumo a Copenhague (Dinamarca), primeira escala de um voo que seguiria depois para Varsóvia, na Polônia. Poucos minutos depois da decolagem do voo 751, o que parecia uma viagem de rotina transformou-se em um iminente cenário apocalíptico. De uma hora para a outra, o avião perdeu a potência total dos dois motores e caiu, por volta das 8h51, em um campo coberto de neve perto da pequena localidade de Gottröra, na Suécia. Felizmente, todas as 129 pessoas a bordo — sendo 123 passageiros e seis tripulantes — sobreviveram. O episódio entrou para a história da aviação mundial como o “Milagre de Gottröra”.
O acidente ocorreu em um período particularmente delicado para operações aéreas no inverno escandinavo. O MD-81 havia pousado na véspera em Estocolmo às 22h10, vindo de Zurique (Suíça), passado a noite estacionado ao ar livre sob temperaturas próximas a zero grau. Técnicos identificaram gelo e acúmulo de neve na aeronave, e o avião foi submetido ao procedimento normal de degelo antes da partida. O problema, descobriria depois a investigação sueca, era um tipo de gelo transparente praticamente invisível — conhecido como “clear ice” — que permaneceu aderido à parte superior das asas mesmo após o tratamento. E o mais grave: uma inspeção noturna realizada por um membro da equipe de solo no aeroporto de Estocolmo detectou e registrou “clear ice” nas superfícies superiores das asas. Essa informação não foi repassada ao membro da equipe responsável pela inspeção pré-voo no dia seguinte e a aeronave foi liberada para voo com gelo que não havia sido removido durante o processo de degelo em solo.
Avião modelo McDonnell Douglas MD-81 da SAS envolvido no acidente — na foto ele aparece no aeroporto de Düsseldorf, na Alemanha, em junho de 1991, meses antes do acidente
Logo após a decolagem (25 segundos depois de deixar o solo, mais precisamente), fragmentos desse gelo se desprenderam das asas e foram sugados pelos motores traseiros do avião (nesse modelo os motores não ficam localizados sob as duas asas, e sim perto do estabilizador vertical, mais conhecido como “cauda”). O impacto causou sucessivas oscilações internas nos motores, acompanhadas de estrondos e vibrações. Os pilotos reduziram potência tentando estabilizar a situação, mas um sistema automático do MD-81 — chamado ATR, Automatic Thrust Restoration — voltava a acelerar os motores automaticamente (nas decolagens os aviões demandam força total para continuar a subida normalmente). A combinação destruiu progressivamente as turbinas. Em menos de um minuto e meio de voo, os dois motores haviam parado por completo.
Reprodução do episódio da série Mayday! Desastres Aéreos sobre o voo apelidado de “Milagre de Gottröra”
Foi tudo muito rápido. Entre a decolagem e o impacto no solo transcorreram cerca de quatro minutos. O comandante dinamarquês Stefan Rasmussen e o copiloto sueco Ulf Cedermark tiveram pouquíssimo tempo para compreender uma situação extremamente rara: um jato comercial moderno transformado, subitamente, em um enorme planador sem potência. A baixa altitude e o céu encoberto típico do inverno do norte da Europa praticamente eliminavam qualquer chance de retorno ao aeroporto.
Quando o avião finalmente saiu das nuvens, os pilotos avistaram uma clareira cercada por floresta. Rasmussen decidiu tentar o pouso forçado ali mesmo — não havia outra opção. Durante a aproximação, a asa direita atingiu árvores, parte da estrutura se desprendeu e a aeronave tocou o solo com a cauda primeiro, deslizando pela neve até se partir em três grandes seções.
Avião se partiu em três grandes segmentos
As imagens do acidente impressionaram investigadores e especialistas em segurança aérea. O MD-81 ficou destruído, como é possível ver nas fotos que ilustram este texto. Ainda assim, não houve mortes. Oito pessoas sofreram ferimentos graves e dezenas tiveram lesões leves, mas a maioria dos passageiros conseguiu deixar a aeronave caminhando. Lembrando que o voo transportava 129 pessoas.
Outro elemento frequentemente lembrado sobre o acidente foi a presença de um comandante da SAS viajando como passageiro. Ao perceber a gravidade da emergência, ele correu até a cabine para auxiliar os pilotos durante os minutos finais do voo. O relatório da investigação apontou que sua ajuda contribuiu para a coordenação da cabine em um cenário extremamente caótico.
O estrago não foi pequeno na cabine, mas todos os passageiros e tripulantes saíram com vida da queda
A investigação conduzida pela autoridade sueca concluiu que a principal causa do acidente foi a falha dos procedimentos da SAS para detectar e remover o “clear ice” das asas antes da decolagem. O relatório também criticou o fato de os pilotos não terem sido treinados adequadamente para reconhecer o fenômeno nos motores e destacou que o funcionamento automático do sistema automático ATR era pouco conhecido dentro da companhia aérea. O caso provocou mudanças importantes no cenário global em procedimentos de degelo, treinamento de tripulações e comunicação técnica entre fabricantes e operadores.
Décadas depois, o voo 751 continua sendo estudado em cursos de segurança operacional e lembrado como um dos acidentes mais impactantes da aviação moderna. Não apenas pela sequência de falhas, mas porque praticamente todos os fatores pareciam apontar para um desfecho fatal — clima severo, perda dupla de motores, baixa altitude e pouso improvisado em meio à neve. Ainda assim, o acidente terminou sem mortes. Curiosidade: ao contrário de outras empresas aéreas, a SAS mantém, mesmo após o acidente, a numeração do voo 751 entre Copenhague e Varsóvia (o voo não parte mais de Estocolmo).