Acidente com o voo Varig 254: trinta anos de um avião esquecido na selva

Há exatos 30 anos, as pessoas no Brasil ligavam a TV ou o rádio e davam com a notícia bombástica: um avião de Varig havia sumido na véspera quando sobrevoava a floresta Amazônica. E ninguém sabia onde ele estava, o que havia ocorrido ou como estavam as passageiras, passageiros e tripulação. O que se sabia é que, no fim da tarde do dia anterior, o voo 254 da extinta companhia aérea gaúcha levantou voo de Marabá, no Pará, para um curto trecho de rotina até a capital do Estado, Belém. Era a última parte de uma cansativa jornada que começou de manhã, em São Paulo, e passou ainda por Uberaba, Uberlândia, Goiânia, Brasília e Imperatriz antes de chegar a Marabá — as empresas pararam de fazer essas maluquices de pinga-pinga lá pelos anos 1990. O fato é que o Boeing 737-200 jamais pousou no destino final. Cerca de 3h depois do horário previsto da aterrissagem no aeroporto Val-de-Cans, com o fim do combustível, a conclusão era a de que certamente o comandante havia feito um pouso forçado. Onde? Mistério total. No dia 5 daquele mês, um pequeno grupo de sobreviventes (foram 12 fatalidades no total) conseguiu chegar a uma fazenda em Mato Grosso, distante 1.100 quilômetros de Belém, e passou a localização aproximada do avião acidentado, pois as autoridades brasileiras não tinham a mínima ideia de onde estavam os destroços. E toda a confusão que levou à queda foi por conta de uma prosaica vírgula.

 
Cauda do avião em meio à floresta Amazônica

Cauda do avião em meio à floresta Amazônica

 

Acordei hoje, dia 4 de setembro de 2019, e leio ainda na cama as notícias das três décadas passadas do acidente. Como atualmente existe a internet e não dependemos dos horários dos telejornais, tenho rapidamente acesso a uma infindável lista de notícias, descrevendo como foi o acidente, o que aconteceu, como estão os sobreviventes etc. E me perguntei: devo fazer uma matéria para o rivotravel? Será que escrever sobre acidentes não piora o medo das panicadas e panicados que leem o texto? Decidi sentar em frente ao computador e começar a por as ideias “no papel” por dois motivos: o acidente do 254 talvez seja minha primeira lembrança de um evento tão impactante envolvendo a aviação, assunto que amo desde pequeno. E outro motivo é que, hoje, esse acidente seria impossível, graças justamente aos avanços tecnológicos — vou explicar sobre isso mais adiante.

Desastres aéreos sempre me fascinaram, e isso vem desde a infância, quando eu nem era um panicado (será que existe criança com aerofobia? Boa pauta para apurar, por sinal). Tenho viva a memória de ler, no sofá da casa onde cresci, a revista VEJA com uma matéria completa sobre o caso do voo acidentado da Varig, mas ainda sem detalhes da queda do avião. Acho que a matéria saiu poucos dias após o fim dos resgates. Eu tinha sete anos de idade, ainda era um novato na arte da leitura, mas lembro como se fosse hoje: eu consumindo vorazmente aquelas frases, vendo e revendo as fotos feitas no local. As imagens do pequeno Salvatore, com aquela VEJA nas mãos, me chegam com enorme riqueza de detalhes, inclusive a luminosidade tênue que invadia a sala no momento que travei contato com a revista, possivelmente recém-entregue. Devo ter relido a reportagem inúmeras vezes — até hoje é um dos casos na aviação mundial que mais me chamam a atenção. Pena que não guardei o material impresso. Será que vende na internet?

 
Foto do 737-200 acidentado feita dias antes do acidente

Foto do 737-200 acidentado feita dias antes do acidente

 

Foi com enorme saudosismos que, anos atrás, ao saber que a revista VEJA havia disponibilizado gratuitamente e por um período limitado a versão digital de todo seu acervo. “Folhear” aquela matéria teve um gosto delicioso de reviver a infância. Pode parecer meio mórbido, eu sei, afinal estamos falando de um acidente, mas a mente humana é complexa mesmo. Inclusive já fizemos matéria sobre o assunto, que você pode ler aqui. Aliás, para quem quiser ler um bom livro narrando todos os detalhes do voo 254, deixo a sugestão da obra Caixa-Preta (Editora Objetiva), de Ivan Sant’Anna. É uma leitura muito boa.

Sobre o acidente, talvez muitas e muitos de vocês já tenham lido algo nos últimos dias, mas vou contar resumidamente essa história. A tragédia teria sido evitada se não fosse a tal vírgula que eu disse lá em cima. A Varig introduziu planos de voo computadorizados meses antes daquele fatídico setembro de 1989, nos quais eram contidas informações como frequências de rádio das torres dos aeroportos e pontos de referência para a navegação. Também constava neles a rota descrita em graus, como podemos conferir em uma simples bússola. O problema é que, até então, eram usados apenas três dígitos. Com as alterações, o campo passou a contar com uma casa decimal, ou seja, quatro dígitos ao todo. No caso do Varig 254, o comandante Garcez, desatento, leu “0270” e inseriu a rota 270°, e não a correta, que seria 27° (esqueceu que a última casa do “0270” era para ser considerada como decimal). Isso fez com que, após a decolagem em Marabá, o avião pegasse uma direção completamente diferente, que jamais levaria a Belém. O voo começou como se tudo estivesse ocorrendo normalmente. A noite chegou e, na hora de pousar, onde estavam as luzes da cidade? Garcéz levou o avião para o coração escuro da floresta amazônica, sem comunicar nada a torre de controle logo que percebeu a trapalhada — tentou até onde podia reverter a situação sem declarar emergência. Ele não sabia mais onde estava, e todos aqueles em solo também não tinham como adivinhar o ponto exato do 737-200 no mapa. A conversa entre torre e cabine do piloto, que não admitia o erro, mais parecia um cego tentando guiar o outro no meio de um tiroteio

 
As equipes de socorro chegaram ao local quase 48h após a queda

As equipes de socorro chegaram ao local quase 48h após a queda

 

Se você, cara leitora ou leitor, já está hiperventilando de aflição e temendo pela própria vida na próxima viagem aérea, muita calma nessa hora. Tal confusão seria impensável hoje, em tempos nos quais mesmo os celulares contam com localização via GPS, tecnologia ainda não disponível nos aviões dos anos 1980. Outra coisa: naquela década, a Amazônia ainda era um território não coberto totalmente por radares, fato decisivo para o “sumiço” do 254.

Bem, trocando em miúdos, Garcez, depois de esgotar até a última gota de combustível na vã tentativa de achar uma pista que chamais chegaria, declarou situação de emergência e teve de fazer um pouso forçado na selva. O avião logo teve as asas arrancadas pelas árvores, e parou 100 metros adiante. Onze pessoas morreram no choque ou nas horas seguintes — outra vítima faleceu à espera do resgate, que começou quase dois dias depois da queda. Apesar das fatalidades, muitos consideram que houve sobreviventes “por um milagre”. Dos 42 que saíram vivos da selva, 17 tiveram ferimentos graves e 25 sofreram ferimentos leves.

O comandante Cesar Garcez e o copiloto Nilson Zille foram condenados a quatro anos de prisão. A pena foi convertida em serviços comunitários, devido aos bons antecedentes. A responsabilidade dos dois na tragédia é atribuída ao erro de navegação e relutância em pedir ajuda, tendo optado por tentar descobrir o caminho para Belém sozinhos guiando-se por rádios comerciais e análises visuais culminando na aeronave sem combustível.

Se interessou pelo assunto? Recomendo demais o livro já citado, o Caixa-Preta, ou então episódios de séries sobre desastres aéreos — basta jogar Varig 254 no YouTube. E se você achou essa matéria pesada demais para seu pânico, que tal relaxar com um Conto do Rivotravel? Sugiro esse aqui ou então esse aqui. Agora vou buscar nas redes se tem alguém vendendo a VEJA sobre o 254…

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