E se... eu tivesse menos dúvidas? — questões que passam pela cabeça de quem tem medo de voar

E se eu tomar o remedinho na véspera do voo para dormir bem? Mas e se eu dormir demais e perder o avião?

E se eu tomar só no Uber a caminho do aeroporto? Mas e se eu tomar no Uber a caminho do aeroporto e a agente do check-in achar que estou sob efeito de drogas ilícitas e chamar a polícia?

 

E se…

 

E se eu pedir à aeromoça pra conversar com o piloto, pedindo um alento, um conforto quase espiritual? Mas e se eu atrapalhar os muitos check-lists antes da decolagem, eles esquecerem de algo e isso mudar o rumo das coisas?

E se eu tomar o comprimido salvador só dentro da aeronave? Mas e se eu apagar e não aceitar a bebida e depois acordar passando sede e sem forças de sair no meu lugar para buscar um copo d’água?

E se eu não tomar nada e bancar a coragem em pessoa? Mas e se isso der muito, muito errado?

E se eu buscar uma palavra amiga por WhatsApp com algum contato em terra, para distrair a mente, uma conversa que distraia? Mas e se o Wi-Fi não tiver funcionando?

E se eu levar um livro para passar o tempo, uma revista de palavras-cruzadas, um filme carregado no celular? Mas e se meu coração estiver tão acelerado e eu não conseguir me concentrar em nada?

E se o bolo desandar de vez e eu, suando em bicas, puxar papo com a pessoa ao lado para me acalmar? Mas e se o passageiro ao lado estiver com cara de poucos amigos?

E se o voo tiver vazio e não houver ninguém na poltrona vizinha?

E se tiver alguém, mas esse alguém também sofrer de aerofobia?

E se eu tomar um pouquinho mais, só um miligrama a mais, e dormir gostosamente na poltrona apertada? Mas e se acontecer um pouso de emergência e eu ficar imóvel no assento e ninguém me tirar de lá para me empurrar inerte pelo tobogã?

E se eu tomar um pouquinho a menos do que o habitual? Mas e se eu tomar um pouquinho a menos e ter uma crise nervosa a 40 mil pés de altitude?

E se eu me arrastar aos tropeções pelo corredor até o fim do avião e abrir meu coração aflito para as aeromoças? Mas e se elas apenas me responderem como chavões como “voar é super seguro” e voltarem a conversar entre elas?

E se eu voltar para meu lugar, depois de tal tentativa de socorro frustrada, me sentar e em uma catarse chorar para espantar os males da alma em sofrimento? Mas e se me filmarem e eu for parar nas redes sociais?

E se eu misturar o remédio com uma dose, só uma dose, uma mínima, ínfima, nanométrica dose de uma bebida alcoólica, mesmo sabendo que não é indicado? Mas e se eu fizer isso e der ruim?

E se eu achar que vou panicar e tomar um reforço já meio da viagem? Mas e se eu pousar em um estado lastimável e não conseguir me arrastar para o portão de embarque da conexão?

Ou se eu der vexame na reunião?

Ou se eu perder um dos poucos dias das férias babando na cama do hotel?

Ou se aquele fim de semana romântico se transformar em um jantar dopado e cada um for pro seu lado depois?

E se eu não tiver remédio suficiente para tomar no voo de volta? Mas e se a receita de outro Estado que a minha médica me deu for aceita em todo o país?

E se….

Por falar em médica, acho que, na minha volta, é melhor marcar uma consulta com a psiquiatra. E retomar terapia.

E não é “se eu voltar”, pois eu vou voltar. Afinal, já estou pagando as parcelas da viagem de fim de ano e não vou morrer tomando esse prejuízo.

RivorivotravelComment